terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A bala que não matou Hitler

Um desastrado terrorista anarquista sérvio de seis dedos, integrante da mão negra, tentando impedir o suicídio de Getúlio Vargas, acidentalmente, com o dedo extra, acabou disparando o tiro cujas consequências foram matar o então presidente do Brasil e adiar a ditadura militar brasileira em 10 anos. A história deste terrorista fictício, Dimitri Borja Korosec, é o enredo do excelente livro de Jô Soares “O homem que matou Getúlio Vargas”.

Em outro ponto da história, uma arma dada de presente por um japonês, dispara um tiro acidental na África. O tiro disparado por um jovem pastor de ovelhas africano, atinge um ônibus de turistas e tem consequências diretas e variadas no Japão, México, Estados Unidos. Essa é a história de um excelente filme estrelado por Brad Pitt, chamado Babel. Algo bastante complexo e até difícil de acreditar em um mundo tão grande, embora tão conectado. Mas muito real.

A sensacional trama escrita por Jô, embora fictícia, bem como o, igualmente sensacional, filme hollywodiano, têm a mesma base, extremamente sólida, embora mal percebamos: a história, nada mais é do que uma sequência de acasos, coincidências, tomadas de decisão. No final, tudo está ligado e um grão de areia movimentado na Austrália pode ter efeito no Brasil, como diz a teoria do “Efeito Borboleta”, cujo conteúdo é fundamento para o filme homônimo.

No esporte a gente acredita mais nisso, talvez por ser mais evidente e presente às nossas vidas. É a história de “o se não joga”. Se aquela bola não bate na trave, se o atacante não escorrega... Mas não conseguimos transportar isso à nossa realidade ou nosso cotidiano. Não sei se a sorte e o acaso existem, ou se são meras tramas de uma complexa teia criada por algo superior, fato é que dois centímetros a mais ou a menos em qualquer movimento podem mudar o mundo.

Aliás, a humanidade só existe por causa de dois “insignificantes” centímetros. Há bilhões de anos, quando o sistema solar se constituía e a terra era apenas um aglomerado de massa recém formado por destroços de explosões aleatórias, um pedaço de um corpo celeste qualquer, em meio às colisões, foi desviado 2 centímetros do curso, impedindo um choque imediato e mudando completamente sua rota. Alguns bilhões de anos depois, a Terra já formada e habitada, justamente por causa desses dois centímetros, esse asteroide colidiu com o nosso planeta. Estavam extintos, então, os dinossauros.

A teoria do acaso e da desordem é bem factível na física e na formação do universo. Afinal, o universo foi/é criado através do acaso. As condições que permitem a vida na Terra, idem. Um pequeno movimento no Universo e pronto. Ele conspira, embora em escalas de espaço e tempo inimagináveis por nós.  Por que então nós, parte do universo, não faríamos parte dessa lei? Por que grandes fatos não podem surgir de pequenas ações ou coincidências? Por que o curso da história não pode ser alterado por pessoas comuns? Podem.

Aliás, o curso da história é alterado todos os dias por cidadãos comuns. Hoje é difícil acreditar, mas a maioria dos grandes homens da história, não nasceram grandes. Mas, por diversas razões se tornaram gigantes, maiores a sua própria vida, vilões e heróis imortais, gente que mudou o curso da história da humanidade.

Um jovem artista austríaco, vivendo na periferia de Viena, mal conseguia subsistir da venda de seus desenhos. Sem um plano B, aquele homem pobre, solitário, perdido, sem rumo, sem perspectiva e revoltado por estar em um país multicultural; provavelmente estava com seus dias contados, terminando seus dias na pobreza e anonimato. Em Sarajevo, um arquiduque cuja posse só foi possível por questões amorosas que levaram seu primo ao suicídio, foi assassinado desencadeando a Primeira Guerra Mundial. 

O jovem artista austríaco, então, se alista ao exército austríaco, que, prontamente o recusou por inaptidão física. As tropas alemãs o aceitaram, embora seus colegas considerassem alguém muito estranho. O artista foi colocado como mensageiro, a mais perigosa função na guerra de trincheiras. E não foi bravura ou habilidade militar que o mantiveram vivo. Em uma missão, ele caiu ferido em frente a um soldado inglês cuja arma apontava para o austro-alemão. Ele estava na mira do rifle, mas o soldado inglês, sabe-se lá porque, teve compaixão e não conseguiu disparar.

O jovem artista austríaco e soldado alemão, Adolf Hitler, sobreviveu. E o homem que não puxou o gatilho que mudaria a história da humanidade, um condecorado herói de guerra inglês, cuja imagem foi homenageada por Hitler através de um quadro, repetiu várias vezes ainda em vida: “Peço perdão para Deus todos os dias por não tê-lo matado”.

Mahatma Ghandi, um rico, jovem e promissor advogado indiano; aristocrático e formado na Inglaterra, foi enviado à África do Sul pela companhia em que trabalhava. Já na África do Sul, Ghandi, com passaporte e passagem de primeira classe em mãos, foi colocado em um vagão econômico, repleto de negros e árabes. Revoltado, o advogado argumentou com o funcionário da companhia férrea sul-africana, mostrou suas credenciais. De nada adiantou. Tratado como lixo, foi mantido no vagão rumo ao seu destino final. Lá conheceu um mercador árabe, certamente muito mais rico do que o próprio Ghandi, que lhe informou: “aqui não adianta. Se você não é branco, não é ninguém”. Revoltado, o advogado mudou seu modo de ver a vida e se tornou o personagem que conhecemos.

Histórias como essas foram escritas e reescritas durante a história da humanidade. E quantos ditadores piores do que Hitler, ou mesmo excepcionais estadistas, não apareceram para a humanidade simplesmente pelo fato de outros soldados ingleses não tiveram a mesma piedade? E se o soldado inglês disparasse aquela arma? E se Ghandi fosse mantido na primeira classe? E se o asteroide não fosse desviado dois centímetros? E se o tiro em Kennedy não o acertasse? E se o telegrama alemão não fosse interceptado? Se a Alemanha não financiasse Stalin? Se o arquiduque Francisco Ferdinando desistisse de sua viagem à Sérvia?


Bem provavelmente, quando disse que “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, Ghandi pensava em sua própria história, inimaginavelmente mudada por um evento fortuito. Quem escreve a nossa história somos nós, quem escreve a história do mundo somos nós. Qualquer um de nossos movimentos, por mais ocasionais que sejam, mudam o mundo. Quaisquer que sejam nossos desejos, promessas, sonhos e aspirações, tudo depende de um mínimo movimento, um mínimo para fazer o universo conspirar. E que venha 2015. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um dia apenas

Para o cristianismo, o Natal é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, por mais que a especificidade deste dia, ou mesmo o ano aos quais referenciamos, sejam historicamente contestáveis. Ainda assim, a celebração é, mesmo aos Cristãos, simbólica. Comemora-se o nascimento do homem que, independentemente da religião, foi indiscutivelmente o mais importante da história.  Nem o maior dos ateus pode questionar esse fato. Afinal, em nome Dele e através Dele a história do mundo ocidental foi construído. Poucos são os eventos na história do mundo após Seu nascimento em que, de certa forma, Ele, ou a crença Nele não estiveram envolvidos. Não estou falando em divindade, nem quero entrar nesse mérito, mas em história pura e simplesmente. Mesmo as ideologias políticas às quais o ateísmo era premissa, o fazia em resposta ao cristianismo, contestando-o.

De toda sorte, aos Cristãos e à maioria esmagadora do Mundo Ocidental, essa data simbólica remeteria ao amor, generosidade, caridade. Valores que, em verdade, deveriam ser celebrados e praticados todos os dias. Contudo, e não é novidade para ninguém, as pessoas mudam no natal. É como se toda negação desses valores durante todo o ano se redimisse em pouco mais de um mês, uma vez que, inegavelmente, e isso faz tempo, o natal dura muito mais tempo. Final de ano é transformador, confere um espírito e uma humanidade incomuns às pessoas, a maioria tão ferrenhamente antagônicas a isso durante a maior parte do tempo.

Mas do verdadeiro espírito natalino isso é o que sobrou. Foi interessante manter e se manteve. Na prática, atualmente o natal é como um comercial varejista o qual poderia ser resumido: “o aniversário é de Jesus, mas quem ganha o presente é você”. Assim, como a data virou, indubitavelmente, a mais lucrativa para o comércio, nada como estendê-la, antecipando-a, obviamente. Esse caráter varejista é tamanho que, há muito, embora passe desapercebido, o maior ícone natalino deixou de ser o “verdadeiro aniversariante”. Esse posto passou a ser do “Bom Velhinho”, Papai Noel.

Papai Noel, ou São Nicolau, para os íntimos, prova que, como quase tudo na esfera comercial, o hemisfério norte ditou a cultura natalina. Não só pelo fato de o São Nicolau ser nórdico e usar trenós e renas, inexistentes na nossa metade do planeta. Isso é só um detalhe. Mas, já repararam como o natal no Brasil é moldado por alguns preceitos absolutamente inimagináveis aqui? Pinheiros, no calor desgraçado da maior parte do país, são as árvores de natal. Alguns, inclusive, os decoram com algodão para fingir neve, outro símbolo natalino completamente descabido à nossa realidade.

Assisti na televisão um comercial de um peru de natal. Um comercial feito e produzido no Brasil para um produto brasileiro. Na cena, em plena ceia, todos estão vestindo pesadas roupas de lã. Se em pleno Dezembro algum lugar no Brasil estiver frio, alguma coisa está errada. As crianças, que tanto escrevem ao Papai Noel, são ensinadas à deixarem meias de lá, biscoitos e leite quente ao bom velhinho, como um mimo. No inverno, estação símbolo do natal, isso faria todo sentido. Aliás, quantas casas no Brasil tem chaminés?

Essas são apenas constatações mal humoradas. Há de se considerar, por outro lado, ainda dentro do mercantilismo o tanto que a economia é movimentada neta época e quantos empregos temporários são criados. Além disso, quem é que não gosta de ganhar presente de natal? Quem nunca ficou na expectativa pelo dia 25 de Dezembro para abrir seu presente?

Confesso, logo aos 3 anos perdi a ilusão do Papai Noel. Entretanto, no natal algumas aprendi algumas das lições mais importantes que tive, das poucas que ainda fazem acreditar nas pessoas. A primeira, em uma história longa e desimportante, é que devemos ter esperança, apesar de tudo. A outra é sobre gente. Adolescente revoltado que era, questionei o por quê desejávamos “Feliz Natal”, se o Natal, em si, nada mais era do que um segundo. O segundo entre 23:59:59 e 00:00:00. Então desejamos um segundo de felicidade? Nunca esqueci a resposta: “se alguém te deseja felicidade sinceramente, mesmo que apenas um segundo, você já é um privilegiado”.


À parte os exageros, a neve, o mercantilismo, ao segundo de felicidade, os agasalhos e mesmo a sensação de solidariedade temporária redimindo todo um ano, é um alento ver resquício de humanidade nas pessoas. Mesmo que por um dia. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O arrogante vira latas

Desde sempre aprendemos na aula de história que o Brasileiro não tem uma identidade, inclusive fisicamente, fato pelo qual, nosso passaporte é um dos mais visados por bandidos e terroristas. Uma característica, contudo, nos faz brasileiros. Invariavelmente, não sei se por genética, tendência, ou pura passionalidade, nós brasileiros somos bipolares. Sempre é assim, ou está tudo muito bem, ou nada presta. Ou somos muito melhores, ou muito piores. Somos, efetivamente, emoção.

Nosso complexo de vira-lata é um dos nossos mais arrogantes transtornos bipolares. É uma espécie de complexo paradoxal e incondicional, que não avalia as minúcias, nem sequer faz uma análise minimamente crítica antes de se colocar inferior ou superior aos outros. Somos extremamente complexados quando nos comparamos aos europeus e aos americanos. Ao passo que, comparados aos latino-americanos, somos extremamente prepotentes. É como se, perante aos países de primeiro mundo nos sentíssemos vira-latas e, perante ao resto, um premiado cão de raça e com pedigree.

Nosso complexo de inferioridade não é compreendido nem pelos próprios europeus, americanos e asiáticos. Vemos eles como verdadeiros heróis, habitantes de um paraíso ideal onde tudo funciona. Isso tudo é questionável, sob várias perspectivas. A primeira é o fato de todos os problemas serem questões, sobretudo, de referência. Em um país como a Austrália, por exemplo, a população local reclama veementemente do transporte e saúde públicos. A saúde, confesso, não precisei usar, mas o transporte público australiano, principalmente o de Sidney, chamado de “vergonha” pelos moradores, são invejáveis se comparados, por exemplo, aos transportes sul-americanos. Mas a referência é outra. Se comparado à Barcelona, ou Lisboa, por exemplo, as queixas começam a fazer sentido.

O nosso complexo é, estranhamente, seletivo e sistêmico. Nos julgamos piores à Europa e aos EUA, como se esses lugares fossem os verdadeiros paraísos na Terra. Simples assim, ou melhor, simplista assim. Entretanto esse mundo cor de rosa só existe na nossa imaginação. Vocês acham, por exemplo, que as sátiras feitas pelos americanos ao seu sistema de saúde, educação e à corrupção, são meros frutos da imaginação dos criadores dos Simpsons, do Family Guy ou dos produtores de Hollywood? Óbvio que não. Também é óbvio que a quantidade é muito menor e, sobretudo, muitas das coisas funcionam melhor lá, mas isso não quer dizer que estão livres de problemas sociais.

Os americanos, cujo sistema de saúde público é um dos mais criticados do primeiro mundo, são críticos ao próprio país, tomando como referência, por exemplo, o Canadá. As grandes cidades dos EUA também tem problemas de violência embora, de fato, de maneira muito mais controlada. Casos de violência policial nos EUA têm sido constantes no último mês. Eles também não são perfeitos. Não quero dizer que somos melhores, mas também não somos tão piores, a ponto de se criar um complexo de vira-lata.

Os europeus, sobretudo a Europa ocidental, em geral muito mais desenvolvidos socialmente aos americanos, também têm suas mazelas e problemas. O problema econômico, o desemprego, a xenofobia, a diminuição dos serviços públicos – em qualidade e quantidade. Não faz muito tempo, uma matéria disse que os professores da França que atuam em áreas violentas terão acréscimo na bonificação de fim de ano. Os professores franceses já ganham bem, não é essa a questão posta. O interessante aqui é notar que na França também existem áreas violentas. Algumas mazelas são comuns a qualquer país com populações demasiadamente grandes, embora não seja difícil reconhecer que o Brasil lida com elas de maneira muito pior em relação a muitos países.

Ainda assim, grande maioria da Europa nos considera o país do futuro, com grande potencial, não fosse a burocracia e a bipolaridade local. Um empreendedor francês, por exemplo, estudou abrir no litoral uma pousada de luxo. Contudo, e isso explica o tanto que o Brasil é caro, seu estudo constatou que o baixo fluxo da “baixa temporada” é tanto que, na alta, o preço para compensar o prejuízo teria de ser absurdo. Somos inconstantes em todos os aspectos, o ser humano é. Entretanto, o desnível de nossa inconstância é muito maior às outras.

E é justamente nessa bipolaridade que reside a arrogância de nosso complexo de vira-lata. O mesmo brasileiro que se derrete pelos países de primeiro mundo se considera superior a todos os outros países em desenvolvimento do mundo. Não nos consideramos, sequer, latino-americanos, pois isso, para nós, é um privilégio de quem fala espanhol Aliás, por conta da força econômica, ou pelo pentacampeonato mundial de futebol, quando a comparação é feita com outros países da América Latina, somos o ápice da arrogância. Todos eles, invariavelmente, sofrem com diversos problemas, extremamente parecidos aos nossos. Por outro lado eles também têm muito a nos ensinar.

A nossa relação com esses países é exatamente a mesma que nós imaginamos que nossos países de idolatria têm conosco. Pura imaginação. De mais a mais, por maiores que possam ser nossas vantagens econômicas, muitos países se viram bem melhor ao nosso. Evidentemente uma população menor é essencial para isso, mas o Uruguai por exemplo é um lugar espetacular para se morar. Em muitos pontos os chilenos e os argentinos têm ideias de vida melhores às nossas.  Porque somos tão melhores? Exatamente o inverso, quando a comparação é com europeus e americanos, porque somos tão piores? Não somos nenhum nem outro.

Aliás, quando se é turista, ou mesmo um estudante no estrangeiro a perspectiva sobre a vida de um país é bem diminuída, afinal, excluídas as favelas do Rio de Janeiro, os turistas não vão às periferias e lugares mais perigosos. Ficam dentro de uma redoma turística, protegido de tudo. Quantos turistas e estudantes brasileiros visitaram alguma “non go area” de Miami ou NY?

Somos, em verdade, reflexo de nós mesmos. Afinal, já diria Ghandi, temos de ser a mudanças que queremos ver no mundo. O brasileiro não é. Somos uma imagem, subalterna em alguns pontos e soberba em outros e nossas atitudes demonstram isso. Aliás, é surpreendente a reação das pessoas quando voltam do exterior, se dizendo surpresas sobre a educação e cortesia das pessoas em outros lugares. "Ninguém fura fila, todos respeitam sua vez, o Brasil deveria ser assim..."


Entretanto, somos tão bipolares que nosso comportamento no exterior muda completamente. Somos a turma “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Ora, me pergunto, pois, se os brasileiros tão surpresos com a educação e civilidade, e que se comportam tão bem lá fora, têm a mesma correção aqui, dentro de casa. Em geral, não. O nosso complexo de vira-lata não passa de um arrogante subterfúgio às nossas falhas como cidadãos, como país e como nação. Uma mera representação de nossa bipolaridade. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Guerra Civil

Eu perdi o episódio em que a democracia virou guerra civil. Mas em algum momento o processo eleitoral se tornou uma verdadeira disputa, sobretudo nas redes sociais. O ódio e a passionalidade chegaram ao nível de parecer estar instaurada uma Guerra Civil Tupiniquim. Fato é que a democracia não foi feita para agradar à todos, e esta, em essência é sua beleza.

Jean Fraçois Marie Arouet, vulgo Voltaire, em inspiração ímpar, disse que “posso não concordar com as bobagens que diz, mas defendo até a morte seu direito de dizê-las”. Mas isso é racional demais para uma eleição, racional demais para o Brasil. Outro dia ouvi um pertinente comentário em uma rádio no qual me senti inteiramente representando. Compreendo os motivos de todos para ser contra um dos candidatos. Muito mais até do que para ser a favor de qualquer um dos dois. Entretanto, nenhum deles merece essas defesas e ataques passionais como se fossem salvadores do Brasil, ou como se fossem dois times de futebol.

As paixões chegaram ao ponto de suprimir a razão. Parecia que as pessoas não estavam pensando no bem do país, mas no prazer de suprimir à opinião alheia, o puro prazer da vitória. Nessas horas, assim como no futebol, o melhor é desligar do mundo e ocupar a mente. Afinal chega ser ridículo os derrotados nas urnas dizerem temer pela democracia. Ora, temerem à democracia por perderem o processo democrático? Qual o sentido?

Pior é ver alguns dos expoentes dessas pessoas, gente, por mais incrível que possa parecer, formadora de opinião, dizerem “agora é lutar pelo impeachment”. A democracia só vale para essas pessoas quando elas vencem. Assim, meus caros, tudo fica mais fácil. Os que vibram alucinados pela vitória e os que remoem excessivamente a derrota, não pensam ser o fim o bem comum, levam tudo para o pessoal.

Pior, se eximem de responsabilidade cívica quando derrotados, e protegem a qualquer custo seu candidato se vencedores. Quem vota não precisa ser cabo eleitoral. Quem vota em um ou em outro tem seus motivos para tal, o que não quer dizer, sob nenhuma hipótese, concordar na totalidade com as atitudes do candidato, tampouco reprovar tudo feito pelo preterido.

Não é futebol. Não é guerra civil. É eleição. Além de não ser sinônimo de aprovação incondicional e absoluta, votar em alguém não é dizer que você não irá o fiscalizar, tampouco é assumir a culpa pelo ato dele, ou abster de protestar. Quanto aos eleitores derrotados, isso não quer dizer que ele tem, por obrigação, discordar de tudo, protestar por protestar, ou se abster de fiscalizar e transferir a culpa para os outros eleitores.

Se as pessoas não carregam a culpa pelos atos do candidato que não votou, tampouco deve recair sobre os ombros do eleitor o peso das atitudes de seu escolhido. E os motivos são vários. O primeiro, aos que se eximem de culpa, antes de fazê-lo, deviam se perguntar em que votou para os cargos legislativos e saber seus projetos e ações durante o mandato. Focar somente nos escândalos da grande mídia é fácil. Aos outros, estes devem ter a consciência que, independentemente da escolha na urna, ela traria boas e más consequências, afinal, nenhum candidato tem só propostas boas e ruins. No cenário político, ou mesmo no histórico dos candidatos da última eleição, tampouco temos pessoas cem por cento honestas, e administrações marcadas pela lisura, para ser eufêmico. Além disso, os motivos para escolher um candidato são muitos, até mesmo, o que pensa ser menos pior.

A Guerra Civil online vivida não faz um mês, mediante isso tudo, fica cada vez mais patética e sem sentido. É muito fácil culpar os outros e se abster de sua parte. Tudo dá errado é culpa do governo, mas o que as pessoas, cidadãos comuns fazem? Gritar por gritar é fácil. Não digo, necessariamente, protestos. Mas a parte como cidadão, no simples ato de fazer o que é certo.

Mas não. Nós nos achamos espertos demais para isso. Somos acomodados demais para isso. Seremos sempre, não importa quem esteja o poder, reféns de nossas próprias acomodações, e, por isso mesmo, não há a menor perspectiva de algo diferente surgir. Estamos falando de pessoas cujos votos são definidos via pesquisa, e o melhor, não necessariamente é votado pelo simples fato de ele parecer "não ter chance de ganhar".

E a “Guerrinha” gerou fatos ridículos, de quem, antes de falar, além de não pensar, não procura nem saber o que diz. Fique claro, os nordestinos, e pessoas de quase todas as partes do país, migram para o Sudeste, sobretudo São Paulo, desde que o centro da economia brasileira está lá, há muito tempo. Não é votar em X e migrar. Aliás, São Paulo foi construída pelos nordestinos a quem, em verdade, os paulistas devem gratidão.

Não é e nem foi uma batalha dos ricos contra os pobres. Não é e nem foi uma batalha. Efetivamente, os únicos adversários eram os dois candidatos e seus projetos de poder. Para nós foi uma escolha, sem derrotados e vencedores. Não se tratava de um jogo.  Não é para separar o Brasil, ou maldizer o nordeste, sabendo, inclusive, que, para muitos dos que o fizeram, lá será o destino das próximas férias. 

Vamos ser coerentes e inteligentes. A democracia pode ter seus ônus. Mas é o nosso maior bem político. Não estamos em guerra, não somos fiéis seguidores de nada. O voto não é uma mordaça, apenas uma opinião. Não carregue culpa pelo que deu errado, e nem a certeza de que teria sido melhor. Não concorde com tudo que é dito só para discordar de outra pessoa. Não assuma um lado como um time de futebol, ou como uma religião, pois esteja certo, ambos os lados cometeriam e cometem erros. Ambos os lados vão estar amordaçados pelo sistema político brasileiro. Não existem salvadores da pátria.

O Brasil é feito, acima de tudo, por nós brasileiros. Por isso, antes de qualquer coisa, antes de pensar em culpas, ofensas, partidos, dogmas e imbecilidades sem propósito; independentemente de qualquer coisa, pense em fazer sua parte. Este sim é o primeiro passo para a mudança. 

                                            

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pior que tá, fica

Em 2002 o meu voto era facultativo e, sem o menor remorso, optei por não votar. A razão era simples: não confiava que o Lula pudesse fazer uma gestão competente e, obviamente, não suportava mais as barbáries tucanas no poder. Acertei minhas previsões, embora o país tenha melhorado, não era difícil em vista da situação anterior. Nas eleições seguintes não tinha escapatória. Precisava ir às urnas.


E em 2006 foi a única vez em que votei com convicção. Mas, infelizmente, o Brasil atrasou pelo menos uns cem anos em não eleger Cristovam Buarque à presidência. No segundo turno anulei meu voto. Continuava achando o governo de Lula incompetente, mas o PSDB seria um retrocesso ainda maior. Sabia que as memórias recentes de apagão, de salário mínimo de R$ 200,00, de altos índices de desemprego e pobreza ainda estavam muito vivas.


Anulei, pois não confiava na continuidade mas estava certo a ameaça de revivermos anos entre 1994 e 2002 estava descartada. Lavava minhas mãos. Novamente não me arrependi da decisão. Vi um governo decepcionante, que, orgulhosamente, não elegi. Um governo cujas políticas lembravam muito às implantadas pelo antecessores.

É realmente triste perceber que todos os partidos são absurdamente iguais, e que os presidentes não passam de meros fantoches de empresários e interesses políticos. Para muitos além de triste era decepcionante, não para mim que nunca alimentei nenhuma expectativa por Lula e pelo PT.


Nas eleições de 2010, sem Cristovam, fiquei órfão de candidato. Votei em uma terceira via, na vã esperança de que ao menos alguém de fora do eixo chegasse ao segundo turno. Era necessário um segundo turno para que houvesse debates em condições isonômicas. Mas, com muita pesar, conclui: entramos em um caminho sem volta para um bipartidarismo esquizofrênico, de duas partes essencialmente iguais e reféns de um terceiro partido e de interesses de várias origens.


Afinal, não há, por parte desses dois grandes partidos, nenhum projeto de governo, mas projetos claros de poder, nos quais a troca de interesses é essencial. Outro segundo turno em que o meu voto não foi válido. De novo lavei as mãos. Afinal, se não compactuava com o governo à época, também não queria a “volta dos que não foram”, que eram inofensivos.

Desta vez, porém, eles passaram a ser ameaça. E através dos piores nomes possíveis. No primeiro turno, com a mesma falta de convicção de 2010, embora em candidatos diferentes, votei em uma outra via.  Mas no segundo turno, infelizmente, terei de votar na manutenção do atual governo.


Governo que eu não compactuo, embora tenho de ser justo ao dizer que grande parte de seus problemas têm origem anterior ao atual mandato. Um governo com falhas graves, mas que, enquanto seu concorrente costuma “atuar” em prol de grandes empresários e latifundiários, preocupa-se um pouco mais com educação, por mais insuficiente que esta preocupação seja.

Diferentemente do que dizia slogan do Tiririca nas eleições de 2010, “pior que tá, fica sim”. E nó sabemos disso. Sabemos porque em todos os 8 anos entre 1994 e 2002, os professores das Universidades Federais entraram em greve. Porque vivemos regionalmente nos últimos anos uma imprensa censurada e controlada por um governo cujo maior investimento sempre foi publicidade. Aliás, revivendo aqueles anos, dentro do Estado a greve dos professores, não repercutida pela imprensa, durou meses; afinal nem mesmo as prefeituras pagavam tão mal seus mestres.

O Brasil merecia um segundo turno melhor, mas, pode ser muito pior. Por isso, com muito pesar de não poder lavar as mãos, vou votar pela reeleição e esperar que, nos próximos 4 anos, alguma alternativa, mais capaz apareça para terminar com este maldito bipartidarismo brasileiro.           

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A hipocrisia não é tão hipócrita assim

Desde os tempos do ocorrido com o Daniel Alves tenho tentado falar do assunto, mas a gravidade e delicadeza do tema me impediram. O motivo principal era o receio de ser mal interpretado. Até que, após o caso Aranha, ouvi um jornalista tirar as palavras da minha boca e conseguir, em termos compreensíveis e claros explicar exatamente o meu ponto de vista.

O primeiro ponto é diferenciar racismo de injúria racial, que é um agravante. O caso ali é o segundo, apesar das pessoas confundirem muito. Racismo é quando por questões de cor você limita os direitos de outrem ou o diferencia dos demais. É como, por exemplo, não permitir o acesso de alguém a um elevador, festa, ou qualquer outro espaço que ela tenha direito por ser negro, ou se você deixa de contratar um serviço porque o prestador é negro, enfim, uma restrição clara. A injúria é o que vimos. Não faço juízo de valor se mais ou menos grave, mas são diferentes.

Nem acredito, diga-se, que a maior parte dos gremistas que cometeram tais ofensas nem o torcedor do Villareal da banana tenham condutas racistas diariamente. Ainda assim, eu estando enganado ou não, uma coisa não justifica a outra, pois a atitude é simplesmente injustificável. Como também não há justificativa para que não houvesse relato disso na súmula ou para que o próprio Grêmio não acionasse o tribunal especial, presente em todos os estádios, naquele exato momento. A crucificação e a personificação do ocorrido de Porto Alegre em apenas uma pessoa, também é igualmente cruel e sem justificativa, embora, é verdade, as sanções penais não só são justificáveis, como essenciais. E têm, inclusive, de serem aplicadas também aos outros envolvidos. A punição social, no caso dela, já veio. E está sendo cara.

Voltemos à Espanha. Diferentemente do Aranha, Daniel Alves usou do deboche. O lateral, ao ser alvejado com uma banana por um torcedor espanhol, no El Madrigal, estádio do Villareal, comeu a fruta, em um ato que, embora não tenha sido inédito, embora tenha sido uma atitude planejada para uma ação de marketing, gerando aquele insuportável “#SomosMacacos”. Aquilo nasceu para ser moda, em uma jogada de marketing que virou até estampa de camisa.

A primeira vez, contudo, que uma opinião sobre o tema me chamou a atenção, foi quando um negro teve uma carta lida em uma rádio, dizendo que “não, não somos todos macacos”.  O cunho da carta era bem diferente do que o senso comum podia imaginar. Ele estava indignado, e com razão, com a apologia ao #SomosTodosMacacos. Lembrou ele, com palavras muito diferentes, que, no Brasil, existe um preconceito ainda muito maior do que o da cor da pele. É o preconceito econômico. E como dizia a carta, comer a banana tendo uma Ferrari na garagem é fácil. É mesmo. Poucos dias depois do incidente, o camaronês Eto’o, que há muito sofre com isso, postou exatamente isso. Ele em frente ao seu carro milionário com a legenda: “Eu é que sou macaco?”. Voltando à carta, o ouvinte disse que, naquele momento, o jogador, que, geralmente tem origem humilde, tem a noção que o dinheiro não muda a cor de pele de ninguém. 

Essa frase leva à tona um tipo de preconceito que é extremamente voraz: o preconceito social.  Esse tema quase não foi abordado após o ocorrido, embora, sobretudo depois da foto do Eto’o, alguns comentários do tipo “olha lá, o macaco com um carrão que custa cem vezes o salário do trouxa racista”. Isso passa desapercebido, mas estamos na verdade corroborando com o preconceito social. O que me pergunto é e se ele fosse pobre? Realmente é muito fácil comer a banana com milhões na conta e uma Ferrari na garagem.

Voltando ao Aranha, o goleiro do Santos, mesmo sem uma Ferrari, tem uma condição econômica bem superior à média da população. Contudo, neste caso, o goleiro se sentiu realmente incomodado e indignado. Lembrou ainda, em entrevista posterior, que em muitos lugares, por conta justamente de sua condição econômica, ele é tolerado, e não aceito. Por isso, embora a visibilidade tenha sido infinitamente menor devido aos personagens, a repercussão foi mais intensa e a discussão mais produtiva, até porque a credibilidade do #SomosMacacos caiu por terra na primeira camisa vendida.

Entretanto, através das redes sociais, em ambos os casos algumas pessoas começaram um outro debate sobre outros tipos de preconceito, sobretudo a homofobia no futebol, polemizando a disparidade no tamanho do debate em um caso e outro. Alguns, é verdade, chegam à estupidez de justificar esta diferença dizendo que a diferença é que “não se escolhe ser negro”. Isso é uma estupidez sem fim. Primeiro pelo fato de a sexualidade não ser opção ou escolha, e isso, aos imbecis de plantão, é inclusive comprovado pela ciência. O segundo porque considerar a diferença por esse prisma É dizer que o negro é inferior, apesar de não ter escolhido e o homossexual escolheu ser inferior, ou seja é racista e homofóbica por natureza, um verdadeiro absurdo.

Há uma razão de ser nesta diferença que é vai muito além do preconceito. Quando alguém xinga no estádio, e não estou fazendo juízo se é certo ou errado, ele nem se atenta se o xingado é ou não aquilo. O cara não sabe, nem quer saber, a orientação sexual, ou a profissão da mãe do cara. O intuito, neste caso, é muito menos ofensivo. É xingar por xingar, como na pelada, como na partida de truco, e por aí vai. É desabafar sobre alguma coisa feita pelo ofendido cujo ofensor não pode fazer nada. Xingado e xingador sabem disso, tanto que o ofendido, dificilmente se preocupa com isso.

Quando se chama alguém de macaco da maneira que foi feita, o objetivo é muito além de xingar uma pessoa. O objetivo é, deliberadamente, a julgar inferior por causa, neste caso, da pele. É se considerar um ser superior à ponto do outro passar de gente à animal. Algo muito pior que um xingamento.

Transportando essa questão à sexualidade, na maioria dos casos é, sim diferente. Certa vez, quando o Richarlysson reclamou de homofobia, um colunista, do qual divirjo em quase 100% das coisas, disse algo interessante. “Como um cara que se diz heterossexual pode sofrer de homofobia?” Quem vai ao estádio, independentemente da orientação sexual, xinga alguém de “viado”, sem maiores problemas, tanto na intenção quanto na recepção.

Mas maioria não quer dizer todos. Certa vez, em um jogo de vôlei, um atleta assumidamente homossexual, sofreu algo muito parecido ao que passou o Aranha em Porto Alegre. Quando ele ia sacar, o coro da arquibancada era muito diferente do quando um outro atleta era xingado. Era avassalador. Naquele caso, e talvez possa ter ocorrido com o Richarlysson em alguns casos, sobretudo com torcidas adversárias, as pessoas julgavam àquele atleta como um ser inferior pela sexualidade. Ele, como o Aranha, foi discriminado. Não eram xingamentos aleatórios. Eram direcionados, discriminatórios e ultrapassavam à esfera esportiva.

Neste sentido, portanto, não comparar o caso Aranha aos outros xingamentos nos estádios, do tipo “viado”, não tem nada de hipócrita. A comparação, na verdade, nem cabe. O caso do atleta do vôlei, porém, foi exatamente o mesmo sofrido pelo Aranha. A hipocrisia, neste caso, é o fato de ninguém ter falado em responsabilidade penal a nenhum dos envolvidos na questão do voleibol, e mesmo de não se dar a mesma repercussão.

Voltando ao Aranha, ontem ele esteve de volta ao mesmo estádio. Lá, desta feita, provou cabalmente a hipocrisia, não com relação aos outros xingamentos, mas com relação aos valores e ao próprio racismo. Primeiramente, a menina crucificada, que não tem nada de coitada, mas também está longe de ser a mentora intelectual ou a única culpada, já havia demonstrado o arrependimento. Não pelo que ela fez, mas pela consequência de sua ação.

A partir disso, o treinador do Grêmio, algumas pessoas da imprensa o próprio presidente do clube, foram à imprensa falar bobagens, culpando o Aranha pelo ocorrido, como se ele fosse culpado pelo racismo sofrido e pela eliminação do Grêmio. Ele foi a vítima. Mas a vítima no Brasil é quase tão culpada quanto o infrator. Por isso, em uma demonstração ridícula de aprovação ao ato racista de alguns torcedores, a torcida ontem vaiava o goleiro do Santos com veemência. Muito mais do que o normal e quem acompanha futebol sabe disso.

Depois do jogo, o goleiro ainda teve de se sujeitar a uma repórter que, além de demonstrar o não entendimento da gravidade da questão, confessou ao jogador ser neutra com relação à atitude da torcida. Isso sim é hipocrisia. Mas o jogo é muito mais importante à integridade humana. Estou certo que não é a maioria dos gremistas, cujo belo hino foi escrito por um negro, mas uma parcela bastante imbecil não só dos tricolores gaúchos, mas como da sociedade em geral.

De toda forma, por essas é que me pergunto se a retaliação e punição da sociedade à grande pivô de toda esta confusão também não é hipócrita. Será que ela está mesmo sendo retaliada – de maneira absurda, diga-se - por sua atitude racista?

Cada vez mais tendo a crer que não; e, apesar de ninguém se atentar, a real motivação das agressões à moça é a mesma de seu arrependimento: a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A solução pro nosso povo eu vou dar...

...E não vou dizer que está nas urnas. Até porque as eleições brasileiras se resumem à legitimação de um sistema corrompido. Não importa quem você coloque lá, no fim, pouca coisa muda. Afinal, os interesses são os mesmos. Com efeito, os eleitos governam para quem os puseram lá, e não foram os eleitores. São os patrocinadores de campanha. Obviamente, os maiores financiadores, não são imbecis. Qualquer campanha minimamente competitiva vai ser patrocinada por eles. Não têm lado, o objetivo é ficar no poder. Ainda que, nos bastidores, ajudem um pouco mais uma ou outra parte, certamente quem ganhar vai dever algum favor.

Até porque, no Brasil, o sistema, cuja função primordial é evitar a corrupção, funciona como muleta para tudo. Os três poderes, por exemplo, que deveriam servir como freios um dos outros, acabam, antes, sendo comparsas ou instrumento de politicagem. O partido e o poder estão sempre à frente do Estado. Mesmo o poder judiciário, único no qual os membros não são eleitos e entram através de concurso público, conforme consta as más línguas, anda corrompido.

Nem mesmo o excesso de burocracia para todo e qualquer ato público no país impede a palhaçada que assistimos todos os dias. No fim, ela – a burocracia- que deveria ter como função principal diminuir as chances de um processo qualquer se corromper, assim como tudo por aqui, vira muleta para os públicos e acaba permitindo, por exemplo, “o caráter de urgência”, elimina licitações e acaba abrindo espaço para o que ela devia combater, como, por exemplo, o superfaturamento.

Vivemos em uma verdadeira bagunça institucional, institucionalizada e burocrática. Não são poucos os estrangeiros que tentam investir no país, entendendo ser o país do futuro, mas desistem pela desorganização, que serve de muleta para corrupção e de cabo eleitoral. Dizem os forasteiros, “eles tem tudo, tudo, bem na frente, mas não sabem como usar. Será possível?”

Outros propõem secar a máquina pública, embora seja claro que o desperdício do dinheiro não está na máquina e sim nos desvios, roubos e, sobretudo, no poder. Os países escandinavos, por exemplo, os maiores IDH do mundo, são os Estados com as maiores máquinas públicas. A grande maioria das pessoas lá são empregadas pelo Estado. Até porque os aspones são uma verdadeira minoria de privilegiados. E me pergunto, acabando com os cargos públicos CONCURSADOS, supondo sua inutilidade – que realmente é só suposição - como seriam realocadas tantas essas pessoas no mercado de trabalho? Então.    

A solução, portanto, não está em referendar um sistema corrompido. Tampouco fundi-lo por completo. Afinal, em teoria, temos uma das constituições mais bem elaboradas do mundo. Basta fazer funcionar. Também não é inventando uma revolução sem causa e sem o menor respaldo popular, quase que uma aberração, como tentaram durante as Copas das Confederações e do Mundo.

Chego à conclusão, portanto, que a salvação está em fazer uma auditoria. Uma auditoria detalhada, com livre acesso à todos os documentos e com a possiblidade de destrinchar todos os órgãos e instituições brasileiras. Por razões óbvias de isenção, teria de ser uma auditoria estrangeira, confiável e transmitida pelo you tube por 24 horas. Afinal, ninguém teria paciência para ver tudo o tempo todo, mas é garantido que o tempo todo alguém estará vendo.


Auditores com carta branca, isolados do mundo em um hotel, escoltados pela polícia federal dia e noite, sem nenhum contato com o mundo exterior. Terminados os trabalhos é limpar as instituições, enxugá-las, assim como em uma empresa privada. Então reestrutura-se tudo e recomeça. Quem deve algo, paga. Acaba-se a impunidade e publica-se todos os resultados. Os auditores voltam aos seus países de origem e tudo bem. Entretanto, creio eu, se alguém na política ousar fazer uma proposição dessas, não dura mais de 48 horas vivo. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Futebol é questão de Estado

O Brasil sempre foi reconhecido internacionalmente como um país de ponta no futebol mundial. Acostumamos com os melhores jogadores, o melhor jogo, os melhores times e, por isso, temos mais títulos. Essa visão, historicamente consolidada, há muito é mera visão e, não demora, deixaremos o posto de maior vencedor aos alemães. Certamente, isso acarretará na redução do status do jogador e do futebol brasileiro no mercado mundial. Há muito, não temos, como outrora, os melhores jogadores, as melhores equipes, os melhores públicos ou a melhor seleção. Entretanto, mesmo que somente aos nossos olhos, ainda somos e provavelmente sempre seremos o país do futebol.

Nas terras tupiniquins o esporte bretão tem uma função social extremamente importante. E não é apenas aquela função clichê de inclusão social pelo esporte. Até porque, no Brasil, essa inclusão atinge uma minoria de pessoas que conseguem vencer como atletas profissionais. Ainda menor, diga-se, são aqueles que, através dessa inclusão, conseguem ser bem remunerados. Não sou contrário, ressalte-se, ao uso do futebol para isso. Pelo contrário, considero a ideia brilhante. Mas não é essa função, ou melhor, inclusão social que o futebol já representa no Brasil. Pelo menos não neste sentido.

Não é a primeira faz que faço essa ressalva, mas o futebol brasileiro é um instrumento de justiça social na medida em que é a única identidade comum entre ricos e pobres, onde todos somos iguais. No estádio somos todos iguais. Em um gol, não interessa se ao seu lado está o seu chefe o seu subordinado. A alegria e a tristeza são compartilhadas indistintamente, e um mero desconhecido vira seu melhor amigo por um segundo.

Portanto, a construção de estádios, a promoção e organização de campeonatos, a formação de atletas, são, sim, responsabilidade do Estado. Óbvio que feito de maneira transparente e minimamente razoável, bem distinto da maneira atual. Construir um estádio para uma agremiação é um absurdo, sobretudo da maneira que foi feita para o Corinthians. O patrocínio de empresas públicas à equipes que devem o fisco é igualmente questionável.

Por razões óbvias, jamais exigiria um tratamento igual ao governo alemão deu ao futebol no país, investindo mais de 1 bilhão de euros em futebol nos últimos 10 anos. Entretanto, não há como concordar com aqueles que insistem “o Estado tem mais coisas para se preocupar”, “futebol não é questão de estado”. Claro que é. Na medida em que a promoção da cultura, esporte (por mais que sejam negócios) e a integração social são obrigações do Estado.

Ainda que negócio, ainda que organizado por instituições privadas, o futebol exerce uma função social que exige sim intervenção e investimento estatal.  Se o Estado já regulou o futebol através da Lei Pelé, se o Estado tem de atuar em questões judiciais e até de segurança pública referentes ao futebol, se existe até uma “bancada da bola,” não faz o menor sentido se abster em outras questões cruciais.

Atualmente, no estágio em que nosso futebol se encontra, a intervenção estatal se faz cada vez mais necessária. Não digo, como muitos pretendem, perdão de dívidas, isenção fiscal nem nada disso. Entretanto, não podemos eximir os dirigentes de futebol das leis fiscais, das improbidades administrativas, dos problemas trabalhistas que envolve jogadores e funcionários; os contratos duvidosos...

Embora muitos possam achar que não seja questão governamental, é necessário uma regulamentação para o padrão de segurança e conforto nos estádios, os preços dos ingressos, e até mesmo subsídios. Estamos falando e entretenimento, cultura e integração que estão diretamente ligado ao povo. Uma questão que, querendo ou não, gostem ou não, no Brasil é social. Já sabemos que mesmo os outros eventos culturais têm preços impossíveis de serem desfrutados à maior parte da população. O futebol, outrora do povo, uma alternativa, tem, no Brasil, os ingressos mais caros do mundo. E não é segredo que a elevação desses preços está diretamente relacionado à uma limpeza étnica e social nos estádios, ao meu ver, discriminatória e ineficaz, para reduzir a violência.


Ora, se isso não for questão de Estado, não sei o que é.  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Receita do Dia

O Tupiniquim cozinha de hoje oferece duas opções de pratos para você fazer. Aliás, temos até uma terceira opção, mas não é muito popular. Quase não saí; alguns nem sabem que existem. Os dois prato principais do dia, bom, esses são praticamente iguais. Sabor, textura, cheiro... Tudo muito parecido para você escolher e fazer o que mais lhe apetece.

E os ingredientes dos nossos pratos de hoje são quase todos nacionais e vem sendo elaborados nos últimos 20 anos. A lista de ingredientes, embora não esteja completa, segue abaixo:

Plano real, contenção da inflação, greves de professores, greves de servidores federais, crise internacional, valorização e desvalorização do real, incentivo ao agronegócio, desemprego, moratória, intervenção em Minas Gerais, reeleição, privatização, apagão, Mercosul, provão, fome zero, vale gás, bolsa família, bolsa escola, ascensão da classe C, PROUNI, REUNI, Ciência sem Fronteiras, ENEM, mensalão, crise na Petrobrás, Copa do Mundo, painel eletrônico, doleiros, Cachoeira, Gorete, Rombo da Previdência, ranário, Olimpíada, Estádios milionários e sem sentido, caos aéreo, poder de compra, FMI, devedor, credor, cuecas, PAC, importação, exportação... e mais o que você quiser à gosto.

O modo de preparo também é bem simples: pegue esses ingredientes, e todos os outros que você lembrar ou encontrar, e divida-os em duas partes: os produzidos antes do ano de 2002 e os posteriores. E não se importe se alguns dos ingredientes passem pelos dois potes. Neste caso, avalie se os restos eram bons e ruins, como foram aproveitados e descartados e, enfim, escolha em qual das vasilhas colocar.

Separação feita é a hora de avaliar. Mediante à mistura de todos os ingredientes, e de algum tempero qualquer que você deseje colocar, é a hora de provar. O que foi mais saboroso para você?

Se você gostou mais da mistura da tigela que vai até 2002, digite 45 em seu micro-ondas. Agora, se sua preferência é pelo que ficou na vasilha após 2002, digite 13 em seu micro-ondas. Se os dois parecem amargos demais para você, e sua preferência é pelo prato que quase não saí, aperte o 40 no seu micro-ondas. 


Depois, se ainda tiver estômago, é só esperar e desfrutar. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

As picas da Dilma

Antes de mais nada, já antecipo que não defenderei nenhum governo ou partido político. Tampouco revelarei o meu voto e sua lógica. Até porque atualmente o Brasil vive a “crise do mais do mesmo”, na qual temos somente dois partidos fortes para o executivo (PT e PSDB) que são rigorosamente iguais, sobretudo nos defeitos. Além deles, temos uma grande incógnita (que é o PMDB, cujo M deveria significar “Murista”. O pior é que com o número absurda de filiados e eleitos, os “Muristas”, maior partido do país, é quem acaba por nos governar, gerando, evidentemente, a equivalência entre os dois rivais pelo executivo, que tem de se sujeitar ao verdadeiro mandatário.

No fim, nem mais “o menos pior” será o fator decisivo na hora de votar, já que ambos os partidos se equivalem em ruindade. A decisão final, portanto, será influenciada por algum aspecto pontual que seja relevante pessoalmente a cada eleitor e que talvez tenha sido tratado de maneira melhor ou pior por um governo ou um por partido. A minha decisão, que não vou revelar, até porque não me orgulho dela, foi feita assim. Ademais, já estou convicto que o voto que muda o país não é aqueles para os cargos executivos, que é o que você lembra e está sempre em evidência. Se você quer realmente mudar o Brasil, pense e se recorde no seu voto para o poder legislativo, esse sim é relevante ao futuro da nação.

Por essas e outras, repito, não farei papel de advogado de ninguém. O que quero, antes, é tentar decupar a realidade. Isto posto, é incrível o poder que é dado à presidenta da República pelas pessoas e por muita gente que forma opinião. Para ela ser responsável por tudo que lhe atribuem – coisas boas e coisas ruins -, ela teria que ser uma ditadora onipotente e onipresente. Não é bem assim. Repito, não quero ser um advogado de defesa, tampouco defender o indefensável, mas no fim o cargo de presidente nada mais é – seja lá quem for seu ocupante – um mero escudo, principalmente no caso atual.

O fim da ditadura militar, nos bastidores, aconteceu por vontade da alta cúpula militar que ouviu Golbery. Era fato, como ele disse, que a bomba das merdas que eles tinham feito iria estourar, então melhor sair antes da explosão e deixar a culpa para os outros. Bombas e coisas boas perpetuam-se dessa forma na presidência da República desde então. O fato de os candidatos serem meros instrumentos de partido e, portanto, não terem projeto de país e sim um projeto de poder é determinante para isso. Não interessa ao congresso se é bom ou ruim. Interessa quem propôs.

Não obstante, todos os nossos presidentes pegaram e deixaram uma herança maldita. Talvez, diga-se, nenhuma tão pesada com a recebida pela atual presidenta, que é muito mais técnica do que política. Exatamente o oposto de seu antecessor, que se valia muito mais do carisma. De toda sorte, fato é que grande parte das culpas do atual governo são, de fato, responsabilidades assumidas pelo anterior. E vêm sendo assim desde 1986.

Além do mais, ainda não compreendemos o funcionamento entre os três poderes que nos rege. Cada um impõe limites ao outro, o que, se por um lado evita autoritarismo, por outro incentiva negociações. Como executivo está em evidência tendemos a percebê-lo como absoluto. Muito pelo contrário. A possibilidade de atuação do executivo é tão pequena sem o apoio do legislativo que, desde sempre, há negociações e trocas de favores entre os poderes. Se não pelos mensalões, que eram práticas comuns até o escândalo denunciado por Roberto Jefferson, por negociações de cargos, que, em vez de técnicos, passam a ser meramente políticos.


A solução para tais dilemas, sinceramente, desconheço. O que não podemos admitir é que as culpas sejam concentradas em apenas uma pessoa, automaticamente isentando outras tantas com culpas iguais ou maiores às que condenamos. Temos que atribuir às pessoas certas às responsabilidades cabíveis. Não há presidente onipotente tampouco independente. Assim como não há mandatos isolados na história, que comece ou recomece um país do zero. Estamos em uma infeliz sinuca de bico em que não há mocinhos e que os resultados, seja lá quem for o vencedor, serão tão ruins quanto foram os resultados dos governos de ambos os partidos quando o tiveram. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bomba: A final da Copa foi vendida.

O resultado da final ontem já estava decidido há tempos. Em ardilosas negociações, complexas e obscuras chegaram à conclusão que a final deveria ser entre Alemanha e Argentina e que os vencedores deveriam ser os alemães. Enquanto o mundo se preocupava com seus afazeres, enquanto o Brasil se preparava para sediar a Copa do Mundo, trocada, anos antes, pelo título de 98. Em uma grande sala de reuniões homens do mundo inteiro se reuniam para decidir a final da Copa do Mundo.

Os homens grandes da FIFA entendiam que, entre eles, o combinado seria apenas para quem chegaria à final. Dali por diante eles preferiam que fosse decidido na bola, mas que, se houvesse um acordo entre os dois finalistas, estaria tudo bem. Na mesa, apesar da insistência do representante do Brasil, já estava decidido: A final ficaria entre Holanda, Argentina e Alemanha.

A combinação era entre os mais necessitados. Holanda, por ser um título inédito. Alemanha, que não ganhava há 24 anos e a Argentina que não ganha nada, nem Copa América, desde 1993. Chegaram ao consenso que os holandeses poderiam esperar mais uns 8 anos, afinal eles nunca tiveram mesmo. Era a vez de um gigante retornar ao topo do pódio. Então estava certo. A final seria Alemanha e Argentina.

Todos se levantaram, se cumprimentaram e fecharam o negócio. Quem ganharia a final, seria decidido no campo, ou mesmo por um acordo posterior entre os escolhidos. Não era mais problema da FIFA ou de ninguém mais. As confederações foram avisadas, os juízes também.

Todos saíam da sala satisfeitos com o resultado da reunião. Entretanto, o representante da Alemanha bateu no ombro do Argentino e o convidou para uma conversa reservada. Ali ele insistiu ao Argentino que eles, alemães, deveriam ficar com o título. O Argentino, apaixonado por futebol, negou.  Não só uma, mas quatro vezes.

O alemão apelou. Foi ao Hermano, que tinha um cargo inferior ao seu, e propôs:

- Eu renuncio ao meu cargo e convenço aos outros que você deve ocupá-lo. Em troca, você vai à AFA e cede o título à Alemanha.
- Combinado.

Isso tudo aconteceu nos corredores e salas secretas do Vaticano. O representante Alemão se chama Bento. O Argentino Francisco. E a Copa do Mundo foi trocada pelo Papado.

Essa teoria da conspiração é tão absurda quanto todas as outras. O Brasil não trocou a Copa de 98 pela de 2014, nem entregou nenhum jogo dessa copa por coisa alguma. Até porque, mesmo os mais conspiratórios, que acreditam que existem terceiras intenções em tudo, jamais poderiam imaginar que uma equipe patrocinada pela Nike, entregaria um jogo de Copa para Adidas.  

Não sejamos arrogantes. Estamos anos luz de qualquer um de nossos rivais e nosso futebol é uma bagunça, que somos retrógrados, não temos treinadores e nossos jogadores não são mais tão bons assim e que certamente não são os melhores. Se chegamos às semifinais foi porque jogamos em casa e porque pegamos times com muito menos camisa.

Então parabéns à Alemanha, que investiu e que jogou melhor. Enquanto nós estamos parados no tempo e em breve não seremos mais os maiores campeões.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Saudades da Copa

A Copa do Mundo se foi. E parece que começou ontem. O mês voou e, à despeito dos 7 x 1 vergonhoso da seleção brasileira, foi muito legal. Não só pelos feriados, pelos jogos ou pela abstinência nos poucos dias sem partidas. O clima de Copa do Mundo foi o que tornou este mês absolutamente inesquecível. E não me venham com o discurso piegas de quem não sabe separar o que foi a festa popular da questão política. Sério esse papo já encheu.

O estádio foi realmente para poucos, mas as ruas não. E o que estava acontecendo nas ruas era muito legal, embora por um período tão curto. Óbvio que as falhas existiram, não foram mil maravilhas, aconteceram alguns problemas, mas em qualquer evento desta magnitude, independentemente se for realizado aqui ou na Noruega, vão acontecer algumas intempéries. Normal. O saldo, porém, foi extremamente positivo.

Quando em sua história BH teve a chance de receber tanta gente diferente? O mundo enfim descobriu a capital dos bares. Sei que para a maioria dos negócios o período de Copa e a passagem dos estrangeiros foi ruim ou irrelevante, mas para nós, como população, foi excelente. O intercâmbio cultural, a integração e tudo o que a Copa tem de bom, apesar da FIFA, do COL e do Governo.

Infelizmente o Conto de Fadas está prestes a acabar. Nosso conto de fadas de um mês, que na verdade durou apenas uns trinta segundos. A vida voltará ao normal. O fim dos feriados, ainda que tácitos, o fim dessa integração, a volta à pseudo tranquilidade belo-horizontina, a insegurança nas ruas, ao caos urbano, enfim tudo voltará ao normal.


Aliás, não voltará ao normal. Primeiro porque muita cosia ficou protelada para o pós-copa e tem que ser posta em dia, ou seja, o ritmo dobrará. Agora temos eleições e a vida também será extremamente corrida rumo às urnas. Além disso, temos uma conta a pagar, uma conta enorme e cara. Este é o preço que, com o valor agregado da volta à vida normal, que pgamos pelo mês de alegria, um mês atípico para todos os brasileiros e que foi inexplicavelmente bom. A Copa das Copas foi aqui. E agora já sinto saudade do maior evento que presenciei, mesmo sem ter ido in locu a nenhum evento oficial.  

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A ponte que partiu

Quando recém inaugurada, um acidente na Linha Verde impressionou: um caminhoneiro bateu em um pilar e derrubou uma das novas estruturas da rodovia. Visivelmente o caminhão não estava em uma velocidade que justificasse aquela queda. À época, na boca das pessoas, os questionamentos sobre a qualidade da obra e do projeto surgiam, uma vez que a rodovia estava recém construída.

Em âmbito particular, mas com igual repercussão, há pouco tempo, um conjunto de prédios residenciais no Buritis, relativamente novo, foi condenado por falhas estruturais graves, do projeto à execução que ameaçavam os moradores.

Ainda neste âmbito, da janela da minha aula de francês, no Anchieta, enxergo a obra vizinha e meu professor, um engenheiro parisiense que, casado com uma brasileira, radicou-se no Brasil ensinando sua língua natal, semanalmente me mostra as falhas da obra: “aquilo não pode ser feito daquele jeito, pois pode explodir”, “se fizessem isso na Europa, certamente seriam demitidos na mesma hora”, "vão ter que quebrar e fazer aquilo de novo".

Este mesmo francês me relata casos de prédios inteiros que tiveram que sua estrutura arruinada por uma reforma orientada por um engenheiro e que o procuraram para chegar soluções distintas para regularizar a obra. Insiste, o francês, que em vários ramos, como a agronomia e mineração, os profissionais brasileiros são extremamente valorizados na Europa, mas não era o caso dos engenheiros.

Inúmeros outros erros podem ser reparados mesmo por pessoas que, como eu, não entendem nada do assunto. Alguns erros menos graves cujos resultados são algumas infiltrações ou má diagramação de um apartamento.

E após a tragédia do tamanho de um viaduto na Pedro I, a discussão que apareceu nas redes sociais foi, infelizmente, ao meu ver, política. Óbvio, que outros fatores permeiam uma obra pública, sobretudo de grande porte. Os projetos, quando em caráter de urgência, vão direto para execução. Sabemos ainda dos superfaturamentos que, infelizmente, são comuns. Entretanto, nem o mais estúpido dos corruptos faria uma obra dessa magnitude se soubesse de uma possibilidade de que queda.

Digo o mesmo sobre os responsáveis técnicos. Nenhum ser humano, por maior que fosse o suborno, colocaria sua reputação à risco deste tanto. Mas o viaduto caiu. E em ano de eleição tudo é válido pelo voto. Entretanto ninguém pensa na discussão que deveria ser feita: a competência dos profissionais que formamos.

Em todas as áreas proliferam faculdades de qualidade duvidosa e com poucos critérios de avaliação, muitas no padrão pagou passou. A inclusão às universidades, mesmo que necessária, não pode ser feita à qualquer custo. 

O fato é que a discussão sobre a queda do viaduto tem que deixar de ser eleitoreira e política e tem que ser técnica. A educação superior no Brasil, aliás, a educação no Brasil, é crítica. Estamos, agora, colhendo os frutos da nossa educação ridícula e mercadológica em todos os níveis, que somadas à baixa valorização do profissional, cargas horárias malucas e salários ridículos. Qual esse fruto? A incompetência. Então, antes de pensarmos politicamente, vamos pensar na questão técnica, porque foi isso que derrubou o viaduto.