terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Chico Argentino


Não sou religioso. Vivo em uma eterna agnose, tendendo a crer, talvez pelo simples conforto que a crença em Deus e em vida pós mortem trazem. Ainda assim, nesta perspectiva de crer em algo, não seguiria nenhuma religião. Não concordo com nenhuma delas, seus passados, suas índoles ou suas interpretações do que dizem ser Escrituras Sagradas. Preferiria ter uma espécie de religião própria, pautada muito mais em atos do que em fé. No entanto, devo admitir, provavelmente por tradição e cultura familiar, quando faço uma promessa, ou busco uma liturgia qualquer, por um motivo qualquer, acabo no catolicismo, no qual fui batizado e catequizado. Mas, reforço, não sou católico. Muitas das coisas que a Igreja Católica fez, faz ou prega me desagradam profundamente. Não obstante, creio ter sido inadmissível o financiamento público da presença do Papa no Brasil.

Isso é uma coisa. É inegável, porém, e qualquer ser humano independentemente de religião pode perceber, a importância do Papa como figura pública para o mundo. Suas opiniões importam e fazem diferença no planeta, de modo que ser Papa, quer você queira ou não, exige muita responsabilidade e consciência. Não tenho nenhum problema em criticar ou elogiar papas. O João Paulo II, por exemplo, foi, apesar de seus erros, um bom pontífice, que, inclusive, com muita felicidade, pediu desculpa por vários atos da Igreja durante sua história, como o apoio à escravidão ou ao nazismo. Não meço, no entanto, palavras para criticar o sucessor do papa polonês, o alemão Bento XVI. O papa alemão, que havia feito parte da SS de Hitler, é um homem extremamente conservador e atrasado no tempo, afinal havia cresceu em na Alemanha nazista e, querendo ou não, a cultura autoritária faz parte de sua história. Na PUC, me lembro, alguns alunos costumavam referi-lo como “Papa Nazi”. O alemão, com seu conservadorismo arcaico, estava ganhando antipatia das pessoas e, consequentemente, a Igreja Católica perdendo fiéis.

Parecia óbvio que o Papa Bento XVI não duraria muito em sua posição. A história mostra que as religiões e igrejas só se perpetuam no tempo, mediante às mudanças nas  sociedades, de duas formas: através do medo e força, ou se adaptando às mudanças sociais de cada época. A Igreja Católica, historicamente, desde os movimentos reformistas que a contestou, optou pela adaptação. Bento XVI era atemporal, um tiro no pé. Não que sua capacidade intelectual e cultural seja menor que às de seus sucessores e antecessores, óbvio que não. Diga-se, um seminário é um bombardeio de conhecimento, filosofia e leitura, em que a fé dos seminaristas é testada à toda prova, o que é facilmente perceptível em qualquer conversa ou mesmo declaração dos sacerdotes com relação à economia, política, filosofia. Não é surpreendente, pois, quando um pontífice como Francisco concede uma entrevista esclarecida, demonstrando conhecimento sobre economia e política.

Não esperem, porém, por mais progressista que um homem religioso possa ser, uma postura totalmente aberta. Afinal, ele se baseia em uma instituição milenar e conservadora que é a Igreja. Por outro lado, um Papa, um pontífice ou religioso qualquer, não precisa, nem deve, ser reacionário. E a história recente mostra isso. Em tempos de ditaduras sulamericanas, embora grande parte da Igreja fosse reacionária e de direita, uma parte da Igreja, progressista, era contra o regime, ajudando, e muito, a militância de esquerda – dita ateia - , com a bendita teologia da Libertação.  A Igreja é feita por homens e estes, não importa o grau da fé e de instrução têm suas predileções e ideologias, ainda que, muitas vezes, sua ética pessoal e institucional possam entrar em conflito. Com efeito, a Igreja Católica é uma prova evidente disso ao longo da história que as instituições efetivamente se perpetuam na história pelo medo ou a adaptação ao mundo, não sendo, necessariamente, pontos excludentes. Ser temente à Deus e à morte sempre foi um argumento extraordinário à favor das Igrejas, e continua sendo, não importando qual a religião.

Por outro lado, existe uma outra forma de se manter uma religião e uma Igreja, forma esta que a Igreja Católica tem, ao longo dos anos, mostrado, mesmo que timidamente, às vezes casado com o medo, outras apenas se adaptando, que é, na medida do possível, acompanhar a sociedade em que se insere. Da Contra Reforma aos dias de hoje esse é o expediente predileto da Igreja Católica. Não é um expediente fácil, sobretudo quando se trata de uma Instituição milenar que, por mais atual que seja, tem que manter algumas liturgias arcaicas para não perder a razão de ser, não adianta querer que seja diferente, aliás nem tem que ser assim, você segue se quiser. O contrário que é o problema. Certa vez, em uma aula de Direito, um professor fez a feliz comparação: “se a sociedade fosse um trem, a publicidade seria a locomotiva e o Direito seria o último vagão”. Isso porque a,  publicidade tem que estar atenta às expectativas da sociedade e fazer de tudo para acompanhá-las, enquanto o Direito, por conta da segurança jurídica, tem que esperar que tais mudanças sejam consolidadas. Entretanto, creio eu, há um vagão atrás do Direito e este é o da Religião. Em suma, devagar a Igreja Católica tenta adaptar-se à sociedade em que vive sem, por outro lado, perder os conservadores fiéis de outrora. Habilmente a Igreja faz isso, sobretudo, nas figuras papais.

João Paulo II, por exemplo, enfim, desculpou-se, em nome da Igreja, pelas atrocidades cometidas aos judeus, aos ameríndios e aos negros. Foi um bom Papa. E não importa qual a religião, a figura papal é importante e suas opiniões e atitudes têm relevância em âmbito global, entre católicos ou não. A igreja sabe disso. Mas, após o falecimento de João Paulo, a cúpula do Vaticano pareceu retroceder alguns séculos na história. Elegendo para o papado o alemão  extremamente conservador Bento XVI. Bento, que havia sido parte da famigerada SS nazista – o que, no tempo dele, faça-se justiça, era obrigatório aos jovens germânicos.  De toda sorte, o papa não se mostrava e certamente não era antisemita. O que não exclui o fato de ter sido criado em uma cultura extremamente conservadora, de ter seus conceitos formados em uma Alemanha dominada pela intolerância. Ele é um homem ultra conservador. A crise era questão de tempo. 

Questões financeiras, problemas de pedofilia, escandâlos e mais escândalos começaram a aparecer na Igreja Católica todos os dias. Como conservador que era, dificlmente se abririam os conceitos da Igreja, bem como a própria Instituição. Portanto, não era de se esperar algo diferente de um homem inteligente como o ex-papa alemão que não a renúncia. Ali, querendo ou não, salvou a igreja de perder alguns milhões de fiéis. Afinal, O conservadorismo extremo e a vanguarda são as únicas maneiras de uma Igreja ou religião se perpetuar durante a história, muito mais do que a própria fé. As igrejas conservadoras obrigam seus fiéis  professarem a fé, através do medo e do autoritarismo, sentimento que, de tão intrínseco, chega a gerar um ódio venal aos que não a professam. A alternativa é, sem negar suas raízes, se adaptar à atualidade. Essa a adaptação não é negar sua tradição, mas sim saber interpretar e analisar o mundo tal qual sua realidade.  Assim como foi com João Paulo II, o Vaticano deu um passo à frente neste sentido, com o papa Argentino, Francisco, que, em pouco tempo, se mostrou muito inteligente e perspicaz.

Francisco, o argentino, se mostrou um papa do povo. Apaixonado por futebol, simples, pregou a simplicidade e uma reformulação da Igreja. De maneira brilhante, pregou a simplicidade dos sacerdortes, ressaltando que eles têm de estar perto das pessoas. E falar somente foi pouco. Ele demonstrou com ações e escolhas. No Brasil,  por exemplo, não quis luxos, ou isolamento. Além disso, diferentemente da maioria dos sacerdotes, não fugiu aos temas polêmicos, nem mesmo os que envolve a Igreja. Papa Francisco admitiu as falhas da Igreja, não se esquivou ou escondeu os problemas de corrupção e escandâlos do Vaticano. Afinal, como ele mesmo enfatizou, a Igreja é uma Instituição composta por seres humanos, que, como tal, são corrompíveis. Embora isso pareça óbvio, era essencial para a sustentação da popularidade da Igreja. O que me chamou a atenção mesmo é como o argentino se mostrou desinibido com assuntos espinhosos e, sobretudo, como ele, o líder da Igreja, não é tão fanático como seus fiéis. Este Papa foi o primeiro que, sem menor restrição e com muito bom humor, “brincou” com Deus. Ora, até pouco tempo era inimaginável um Papa dizer que entrou em acordo com o Brasil, que “se o Papa é argentino, Deus é Brasileiro”.

Papa Francisco, em sua visita ao Brasil, bem como em suas entrevistas, sobretudo as concedidas dentro do avião, provou que a religião não precisa ser intolerante ou retrógrada. Os religiosos não precisam ser preconceituosos, até porque a religião não é preconceituosa, as pessoas são. A interpretação dos livros sagrados, sejam eles cristãos, judaicos, islãs, ou mesmo das religiões africanas, indígenas, bruxarias, satânicos, não são livres. A interpretação, infelizmente, está subordinada aos sacerdotes e Igrejas, que as faz da maneira que os convém. Diferentemente do comum, mesmo dentro do próprio Vaticano, o Papa não pregou a fé pelo medo, mas pelas ações. De fato é algo respeitável, independentemente do que você queira acreditar. Capsciosamente, um repórter perguntou ao Papa sobre a homosexualidade e a fé cristã entre eles. O Papa, sabiamente, respondeu que ter fé e frequentar a igreja é um direito deles, e que ele, Papa, não tem o direito de julgar a orientação sexual das pessoas. Não é papel da religião salvar ou abraçar o mundo, julgar as pessoas ou curá-las. Até porque, ao pé da letra do que se prega nas Igrejas, sexo que não seja com intuito reprodutivo é pecado, independentemente da orientação sexual. Parabéns ao Papa que entendeu, para o bem de sua Igreja, que seu papel é se aproximar das pessoas e confortá-las quando elas buscam. A Igreja não é tribunal para julgar as pessoas, nem hospital para curá-las. O problema delas é querer assumir a condição de representantes legítimas de Deus com poder de julgar o certo e o errado, o bem e o mal. Que o Papa seja exemplo, para o Vaticano e para as outras Igrejas. As pessoas escolhem seguir ou não uma religião. As religiões jamais podem escolher ser ou não a fé das pessoas. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A estátua da Liberdade


Liberdade é tão quista pelos homens que talvez seja o maior motivo de revoluções e revoltas na história da humanidade. Esta palavra, meio que sem significado quando desacompanhada, é tão importante que é a primeira – e talvez a mais cruel -  privação imposta à sociedade para quem está à margem dela. Liberdade de expressão, de ir e vir, de pensamento são todas compreensíveis e tangíveis. Mas a liberdade, em si, como conceito abstrato, esvaziada desses adjetivos, embora alguns afirmam existir e conhecer, é algo incompreensível e impensável.

A noção de liberdade, desadjetivada, ou acompanhadas de adjetivos tão abstratos quanto a própria liberdade, não existem, ou, se existem, são inatingíveis. Liberdade de espírito, alma, energia,  são apenas subterfúgios à realidade dura e cruel em que vivemos, ou melhor, a cruel e insignificante realidade da condição humana. Não somos livres, jamais seremos. Não existe Liberdade absoluta, não existe liberdade abstrata, a liberdade em sua totalidade é uma doce ilusão inventada para nos conformar com nossa condição, com nossa sociedade, enfim.

Até mesmo as liberdades concretas são limitadas, afinal vivemos em sociedade. Ainda que não vivêssemos  existem limites físicos e biológicos que nos restringem à liberdade. O universo é regido por regras e leis e o ser humano, do topo de sua arrogância, quer estar acima delas, para sentir essa tal liberdade, com a qual não estou familiarizado. Nascemos mais livres do que deveríamos, afinal, um dos pilares de nossa educação é a imposição de limites. Bem educados, domados, recrutados, temos as liberdades que precisamos, ou, ainda que não tenhamos, temos a capacidade de obtê-las. Somos livres para ir, embora encontremos limites no dinheiro, na insegurança, em outros fatores. Somos livres para nos expressar, ainda que esbarremos no limite da moral de outro. Somos livres para escolher, embora nos limitemos às opções, embora o próprio ato de escolher nos indica que não somos livres para ter tudo. Somos livres para pensar, ainda que estejamos preso no limite do imaginário.

Liberdade nada mais é do que uma estátua. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Quero copa

Protestei. Fui à rua. Quero a melhora do país, dos serviços públicos e de tudo mais. Quero melhores salários aos professores, saúde e educação públicas de qualidade. Segurança. Quero ter retorno do dinheiro que pago ao governo em impostos. Quero tudo isso. Mas também quero a Copa do Mundo. Não da maneira que ela está sendo feita, é verdade, mas sim quero a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A questão a se refletir é o “como”. Os países “em desenvolvimento”, como Brasil, África do Sul, Rússia, ou qualquer outro que queira, pode e deve sediar eventos importantes, mas a sua maneira, dentro de suas condições, tradições e possibilidade. Não precisamos realizar a “melhor copa de todos os tempo” e ceder aos caprichos da FIFA. Precisaríamos, sim, realizar a “melhor copa possível na realidade brasileira”, como fez a Alemanha, país rico, mas que, diferentemente da África do Sul e do Brasil, não cedeu aos caprichos da FIFA e fez a Copa do Mundo da Alemanha, muito mais do que a Copa do Mundo na Alemanha.  Para isso, os germânicos simplesmente disseram NÃO aos desmandos da FIFA, Franz Backenbauer negou alterações na essência do Estádio Olímpico de Berlim, por exemplo. Por lá, os estádios que foram reformados não foram, como aqui, estuprados. Backenbauer, presidente do comitê local da Copa de 2006, assumiu a responsabilidade de fazer algumas melhorias, mas sem loucuras ou caprichos. Bateu no peito e disse: "ou é assim, ou vá procurar outro lugar". Simples assim. 

A Copa de 2014 não precisava ser uma ode à corrupção, com estádios superfaturados e fora do padrão que o torcedor brasileiro gosta. Era, sim, possível fazer uma excelente copa do mundo sem que essas sandices fossem feitas. Mas isso não quer dizer que sou contra o evento. Aliás, acho um evento muito interessante, em que se cria, caso seja feito da maneira correta, além de várias oportunidades de negócio e chances de investimento em infraestrutura, algo impagável e muito, mas muito, interessante: a chance de, por um mês, vivermos em um lugar cosmopolita, convivendo com pessoas do mundo inteiro pré-dispostas a serem receptivas, a conversar e trocar experiências. Já vivi isso em outras situações, em outros lugares e digo sem a menor sombra de dúvidas que é sensacional. Apesar disso, confesso, não fui entusiasta da candidatura do Brasil, tampouco vibrei com sua vitória, até mesmo porque tinha ideia de como seria, afinal, não caí de para quedas neste país. De toda sorte, cri, e ainda creio, que a Copa não é efetivamente um mal ou o mal, como muitos pintam.

No entanto, não é porque sou favorável à realização da Copa do Mundo, que eu sou favorável a fazê-la a qualquer custo, de qualquer forma,  ameaçando, inclusive, nossa soberania.  Primeiramente, ao contrário de muita gente que respeito, não sou, em absoluto, contra o investimento público em estádios. Em estádios públicos. Nem contra a existência de estádios públicos. Primeiramente porque, não há como negar, o futebol desempenha um papel social quase que essencial no Brasil. Até anteontem, antes da Copa, além do cemitério, o estádio era o único lugar em que existe verdadeiramente a isonomia. Lá, todos são iguais, não há hierarquia, classe social, nada. Além disso, as empresas públicas que administram estádios, se não têm lucro – o que eu, pessoalmente, duvido – pelo menos não têm prejuízo. Mas no Brasil nada funciona do jeito certo. Reconstruímos estádios públicos, com dinheiro público. Mas os entregamos de presente à iniciativa privada. Isso sim é uma afronta.

Afronta ainda maior é o fato de o governo investir em reformas de estádios privados. Não há justificativa plausível e convincente, por mais que tentem.  Não bastasse isso, talvez o maior absurdo, se bem que entre tantas sandices é difícil eleger a maior, foi literalmente construir um estádio para o Corinthians. Literalmente dar ao clube, cujo ex presidente é torcedor, um estádio de presente. Estádio que eu paguei. Estádio construído do zero, em detrimento ao Morumbi, alvo de retaliação da CBF pelo mal relacionamento com seu proprietário. O absurdo Estádio construído no meio do nada, sob a hipócrita desculpa de levar desenvolvimento à região de Itaquera, em São Paulo. Desenvolvimento que, segundo os moradores, não veio e não há sinais que virão. Isso é um disparate, uma ode à corrupção, algo inaceitável.

Ademais, sob a até justa égide de serem democráticos e espalhar a Copa por todo o Brasil os inescrupulosos políticos e as inescrupulosas CBF e FIFA criaram elefantes brancos absurdos, absolutamente desnecessários e, pior, com dinheiro público.Ora, levar à Copa ao norte do país, aproveitar o potencial turístico da Amazônia, perfeito, justo. Que se leve, então, a Copa para Belém do Pará, que tem dois times que lotam estádio e certamente manteriam a praça esportiva. Diga-se de passagem, existe um estádio no Pará que poderia muito bem ser reformado. De certo reformar o Mangueirão – moderno estádio olímpico -, seria muito mais barato do que um erguer um  megalomaníaco e inútil estádio Manaus. Estádio, lembremos, que comporta mais gente do que o público de todos os jogos do único campeonato disputado no Amazonas somados. O mesmo vale para Cuiabá e Brasília. Levar a Copa para o Centro Oeste, para próximo do Pantanal, novamente perfeito e justo. Entretanto, ao lado dessas cidades existe Goiânia, que tem três times médios, nas três primeiras divisões do campeonato, que levam um público razoável para o Serra Dourada, que, poderia muito bem ser reformado. Agora, outra coisa que só pode ser explicada como disparate, distúrbio mental de quem teve a ideia, estão forçando os times grandes a jogarem nessas praças esportivas inúteis, para ver se justifica o investimento. Não há nem como argumentar.

E não é só construir cada estádio a preço de cinco. É construir e reformar estádios de maneira que nem os mais tradicionais se pareçam com o público e o futebol brasileiro. Aliás, pagamos mas não poderemos usar, primeiro pelo preço, segundo pelos hábitos que nos querem forçar. Enquanto na Europa todos seguem o exemplo da Alemanha, fazendo o público do futebol voltar a ser público de futebol, aqui, na contramão da história, estamos transformando estádios em grandes teatros. Torcer sem camisa, pular nas arquibancadas, ficar de pé, bateria, isso é tradição do futebol brasileiro, e se querem a Copa aqui, assim deveria ser. Não queremos grandes óperas, não queremos pagar fortunas para assistir um jogo e, ainda por cima, não poder assistir à nossa maneira. Tirar pessoas de suas casas para cumprir exigências paranoicas da FIFA, torná-la presidente do Brasil, tornar-se escravo desta instituição são absurdos para os quais não existem adjetivos para descrever a repugnância. Isso tudo é verdade, isso tudo tem que ser revisto, mas, ainda assim, não sou contra à Copa do Mundo. 


Sou favorável a Copa do Mundo do Brasil e contra a Copa do Mundo meramente no Brasil. Se me perguntarem, ainda que alguns estragos já estejam feitos e sejam irreparáveis, creio que podemos transformar a Copa de 2014 na Copa do Brasil, basta querer. Primeiro, tem-se que tratar do geral. Retirar a FIFA da presidência da República, auditar todas as contas e obras relativas à Copa, parar todas as obras que tiverem que ser paradas (temos estádios suficientes) e regularizá-las, prender quem tem que ser preso, punir quem tem que ser punido, fechar os ralos de dinheiro, parar o investimento injustificado e sem retorno em obras privadas. Colocar ordem na casa. Isto posto, teremos tempos e recursos suficientes para fazer a Copa a nossa maneira, conforme nossa realidade, nossa cultura e com um preço justo.  Brigar contra a Copa do Mundo é, com todo respeito, eleger o inimigo errado. Ela acontecerá, e vai ser no Brasil, custe o que custar. Muitos dos estádios estão prontos, estuprados, é verdade, mas prontos. Suponhamos ainda que a FIFA go home como muitos querem. E aí? Será que alguém acredita que isso mudará a situação do país? Será que os olhos do mundo para os protestos brasileiros continuarão? Será que a revolta continuará? Será que alguém acredita que a maior vilã  pela situação do Brasil é mesmo a Copa do Mundo? A guerra é contra a corrupção, não contra a Copa. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Na Cara do Gol

Junho de 2013 é um marco. O marco do início de uma primavera de manifestações - ainda que no inverno - cujo ápice, muito sabidamente, foi a Copa das Confederações da FIFA. Uma primavera que esperamos resulte em mudanças significativas na história deste país. À despeito do comentário infeliz do igualmente infeliz presidente da FIFA, dizendo que futebol não era lugar para protesto, apesar de tentarem – e às vezes conseguirem- impedir que a platéia protestasse e até participantes da cerimônia de encerramento o fizessem, de nada adiantou. Os manifestantes do lado de fora, bem como os abusos da FIFA do lado de dentro, foram vistos pelo mundo. Além disso, não havia FIFA para conter as vaias à presidenta da República na abertura, e nem protocolo que a fizesse comparecer posteriormente em alguma outra partida.

As manifestações realmente foram sérias. A proporção chegou ao ponto da Rede Globo de televisão, um dos alvos de parte dos manifestantes, ter que mudar sua cobertura esportiva e até a linha editorial, já que, após o primeiro dia de protestos, nos chamando de trouxa, a “Vênus Platinada” da televisão brasileira tentou propagar todos os manifestantes como baderneiros e os policiais como heróis nos primeiros confrontos. Outros babacas de plantão tentaram entrar nessa onda, como o presidente da CBF, antigo apoiador da ditadura, e seu braço direito Marco Polo Del Nero, mandatário da FPF, que disse que éramos uma minoria de 1 milhão em uma população de 290 milhões e que não íamos atrapalhar. Foram obrigados a recuar e se calarem pouco depois. A Globo, já no dia 18, passou a cobrir os protestos com mais seriedade, chamando os vândalos de uma minoria em meio a manifestantes pacíficos. Os dois idiotas, pior espécime de cartola do futebol brasileiro, sumiram do mapa. Não havia como ser diferente, afinal, desta vez não eram só os grandes centros a protestar. Pessoas em todos estados e em cidades de todos os tamanhos, os lugares em que se ganham eleições e se tenta adestrar as pessoas, foram às ruas. Não era só a mídia (até porque as outras redes de comunicação, televisiva, radiofônica ou impressa não fizeram papel muito diferente da Globo) para nos informar. Tinha a Internet e as redes sociais, depoimentos de quem viu os ocorridos.

Em situações como esta, sobretudo nos primeiros manifestos, quase que inesperados, é meio inevitável que não se tenha algum confronto e que algumas pessoas se exaltem. Mas vimos, e falo porque vi pessoalmente quando fui à rua, vândalos em atuação. Mas vamos por partes. O primeiro ponto é simples, a polícia, em geral, realmente é despreparada e, por mais que muitas vezes eles não inciem o confronto, muitas vezes suas reações excedem e acaba sobrando para as pessoas de bem, que são sim facilmente identificáveis. É fácil ver que parte da reação policial é realmente uma “apelação”, e em vez de conter e se defender, os homens que deveriam manter a ordem, passam a atacar. Mas, como ressaltei, são homens. É possível, por outro lado, fazer a coisa bem feita, como parece que aconteceu em BH no jogo entre Brasil e Uruguai, em que os policiais foram muito mais comedidos do que no jogo anterior, Brasil e México. Isso em BH, porque em Fortaleza, um imbecil fardado chegou a disparar balas reais.  De qualquer forma, o planejamento só pode ser feito quando a manifestação é esperada, o que não era nos primeiros momentos. Além disso, os policiais são humanos e não são saco de pancadas. São mal pagos, em geral mal preparados e tão indignados quanto os manifestantes, o que, por outro lado, não justifica os abusos que aconteceram.

Mas existe uma outra parte da história. Um parte da manifestação que perde o controle e vira vandalismo, com lojas destruídas  patrimônio público destroçado, ataques à polícia, à manifestantes pacíficos e até furtos. Apesar de parecer algo simples e errado, esse fenômeno merece ser visto de maneira mais profunda, já que existem “vândalos”, “vândalos” e vândalos. É fato que tudo o que a imprensa, a classe política e os reacionários em geral querem – embora, vale ressaltar que o movimento brasileiro foi tão amplo que contemplou extrema esquerda e direita – são as cenas de vandalismo. Violência vende jornal, dá audiência e, sobretudo, faz com que o movimento perca apoio popular. Diante disso, e essa é uma tática antiquissíma, do tempo das ditaduras mais anciãs pessoas do poder, ou instituições, contratam, sim contratam, pessoas para se infiltrar nas manifestações e incitarem a confusão, a fim de fazer os movimentos perderem credibilidade. É óbvio que, com a adrenalina em alta, em grupo, diante de uma reação truculenta da polícia, vai ter gente que acaba se levando por essas pessoas e participando da bagunça.

Existem também os que tem algum respeito de minha parte, embora discorde de seus métodos e até de seus argumentos, mas que praticam atos de vandalismo por ideologia. Esses não atacam pessoas físicas, destroem empresas que acham estar contribuindo para estarmos na situação atual e acha que essa é a solução. Essas pessoas, porém, quebram tudo. Não saqueiam. Os que saqueiam, bom esses são vagabundos, ladrões, bandidos, que se aproveitam da situação, aproveitam de saber que ali poderão, desapercebidamente, roubar, saquear e praticar seus crimes. Ora, alguém que é contra uma empresa, certamente poderia se iriar a ponto destruí-la em um protesto. Jamais roubaria seus produtos, uma vez que defendem o boicote à eles. Duvido que os ladrões, que se aproveitaram da situação, saquearam bancos e lojas para distribuir aos pobres. São meros oportunistas. Quem foi às ruas sabe identificar os tipos, tanto os extremistas que vão para o combate, quanto os oportunistas fantasiados de extremistas. Em um sábado à tarde, calor de 30 graus, saímos em passeata do centro de BH ao Mineirão. No caminho, homens de jaquetas pesadas, provavelmente par diminuir o impacto das balas de borracha, moletons, capuzes e máscaras. Ao chegar ao ponto final da passeata, eles vão para cima da polícia, jogam pedras, coquetéis molotov e tudo o que puderem ver.  Quando a polícia reage, alguns desses bandidos, que estão preparados para as bombas de gás lacrimogênio, tentam no corre-corre, bater carteiras. Depois, em um cenário de guerra civil, começa o quebra-quebra e os saques. Não precisa ser gênio para notar que no meio deles são identificados radicais de extremistas, da direita e da esquerda, ultrapassados como poucos, pessoas pagas para estarem ali, seja por políticos seja por instituições e bandidos, que já têm extensa ficha criminal.

Esses são os marginais que tentam agredir à imprensa, de maneira ridícula, diga-se de passagem. Acho justo que se proteste contra os veículos de comunicação, aliás, devo dizer, acho injusto a concentração dos protestos somente contra a Globo, uma vez que a Record, sua principal rival, não é muito diferente. Bom, protestar e criticar Globo, Record, Band, Itatiaia, ou seja lá quem for é justo e legítimo. Ser idiota o suficiente de se recusar a dar entrevista a uma ou outra emissora é igualmente legítimo. Acho idiota porque não há melhor forma de aparecer criticando uma emissora do que no próprio veículo. Imagina você falando mal de A ou B na própria emissora ao vivo? Bom, mas isso é de cada um. Ilegítimo, ilegal e covarde é querer, à força, impedir o trabalho dos profissionais da mídia. Afinal, como os manifestantes eles são trabalhadores, têm famílias para sustentar e, posso garantir, não são responsáveis pelas linhas editoriais de suas emissoras. Vi profissionais sendo ameaçados de agressão e linchamento, coisa, ao meu ver de vândalo, porque se o lema é “Sem violência”  ele tem que valer para os dois lados, e os repórteres são pessoas físicas como qualquer um. Estão trabalhando, simplesmente. 

Quem clama por democracia não pode ser antidemocrático. Em nenhum sentido. Não só no vandalismo, condenável e absurdo, quanto em outra cenas tão esdrúxulas quanto. Uma militante de esquerda, com a camisa de um movimento ao qual não me referirei, para não dar ibope, questionou as pessoas que tiravam fotos com os policiais que, pacificamente acompanharam a passeata, inclusive tirando fotos e filmando, com o mesmo sentimento que todos nós, mas trabalhando, afinal eles têm famílias para sustentar. Ela agia, muito antes do conflito, como se a polícia fosse inimiga da sociedade. Se um dia ela for roubada, assaltada, ou coisa do tipo, gostaria de saber à quem ela vai recorrer. Outros idiotas, bem menos idiotas, mas tão paradoxais quanto, ficam defendendo boicote às marcas estrangeiras, como Coca-Cola e McDonalds. Aliás, quase nos obrigando a não consumir esses produtos. Duvido que nenhum deles foi ao McDonalds do centro, que estava lotado de manifestantes famintos. Duvido que algum deles deixe de tomar Coca, Brahma, Budweiser, patrocinadores da Copa. Pura hipocrisia. Até mesmo porque a maioria dos manifestantes não são radicais, nem de direita nem de esquerda, que se aproveitaram do movimento, embora seja legítimo que eles se manifestem. Até, por isso, acho absurdo alguém impedir a bandeira de algum partido participar. As bandeiras não querem dizer que o movimento é partidário e sim que aquele partido compactua das nossas reivindicações. Já diria Voltaire, “posso não concordar com as besteiras que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizê-las”.


O movimento, legítimo e bonito, infelizmente abre a oportunidade para bandidos e vândalos. Parece e é óbvio. Até eu se fosse um ladrãozinho iria às manifestações. É fato que ao final das manifestações haveria confronto, até porque teria gente que tentaria transpor o bloqueio da polícia. Todos os manifestos tiveram confronto, era quase certo que uma confusão aconteceria. No meio da confusão é a oportunidade para os bandidos, a maioria já com passagem pela polícia, praticasse vandalismos e saques de maneira anônima, sem que fossem procurados posteriormente ou que, em atos isolados, ficassem em evidência. Até porque, não creio que algum dos estabelecimentos saqueados tenha aberto alguma ocorrência, exceto nos casos em que alguns sujeitos, que, além de bandidos, são burros, estavam com seus rostos à mostra e foram gravados por câmeras de segurança. A identificação de suspeitos no meio da manifestação é fácil, mas ninguém é criminoso por ser suspeito. Assim, as manifestações foram oportunidades para bandidos, políticos, vândalos e radicais. Reacionários e imprensa até tentaram usar isso ao seu favor, mas, ainda bem, o povo não é idiota. Quem esteve presente nas manifestações sabia perfeitamente que no meio dessa minoria tinham bandidos, radicais, bobos de plantão facilmente insufláveis e gente paga. Entretanto, finalmente, por conta da divulgação pelas redes sociais, contrariando a expectativa e o desejo dos políticos, isso não intimidou as pessoas de bem, as crianças, as famílias, os idosos de participarem e continuar participando. Os tempos, ainda bem, são outros.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aos heróis, obrigado

Dia 17 de Junho de estive no Mineirão assistindo Taiti e Nigéria. Ganhei o ingresso. Jamais pagaria para assistir Taiti e Nigéria. Aliás, não pagaria para assistir nenhum jogo da Copa das Confederações ou da Copa do Mundo. O motivo não é financeiro, político ou ideológico. Não pago pelo simples motivo porque eu não gosto do futebol ópera da FIFA.  Não me canso de repetir que gosto do futebol e de estádios à la América do Sul, assistindo jogos em pé, pulando e gritando, com emoção e passionalidade, gosto do antigo Mineirão. Essa história de ver jogo sentadinho, só aplaudindo com lugar marcado, isso não é para mim. Inclusive sou contra as mudanças impostas ao Brasil pela FIFA, atual presidente da República, que chegou ao disparate de exigir o cancelamento das tradicionalíssimas festas juninas do nordeste. Não sou torcedor de Copa, desses que a Globo adora, que assiste futebol de quatro em quatro anos, cujos maiores ídolos são o Ronaldo e o Galvão Bueno. Eu sou daqueles que não suporta o nome Fuleco ao – até simpático e pertinente – Tatu-Bola mascote do mundial, ou os nomes Cafusa e Brazuka (com Z e K). Sou daqueles que se sentiram representados, como se aquelas mãos baianas também fossem minhas, quando as famigeradas Caixirolas foram arremessadas na grama da Fonte Nova, fazendo com que a FIFA acabassem com esta palhaçada. Se é para ter instrumento na Copa do Mundo do Brasil, que seja a bateria, ou não é a bateria que rege os jogos brasileiros?

Não sabia que não muito distante dali a história estava sendo feita. Uma história que eu cheguei à participar dias depois, mas que teve seu princípio no dia 17 de junho enquanto eu quase dormia dentro do Mineirão. Ninguém que foi às ruas teve a importância histórica sequer comparável aos heróis do dia 17. Aqueles precursores são os verdadeiros heróis. Por mais incertos que sejam os rumos dessa intifada popular, eles acordaram o Brasil, que precisava mesmo ser despertado. O jornalista esportivo Paulo Vinícius Coelho foi muito feliz ao dizer que vamos estudar o dia 17 de Junho de 2013. Eu tenho a mais absoluta certeza que nossos filhos e netos vão estudar esse momento histórico em nosso país. O movimento, que eclodiu após um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus em São Paulo e tomou proporções nacionais após a reação exagerada da polícia paulista, é muito mais do que a cobrança por um transporte público barato ou de qualidade. Era simplesmente o protesto pelo descaso acumulado.

A última vez em que o brasileiro foi às ruas, em 1992, há 21 anos, com os Caras-Pintadas, foi para pedir o impeachment de Collor. Anos antes, o pedido era por Diretas,  depois de  uma sangrenta e longa luta contra o regime militar. Entretanto, apesar de serem movimentos legítimos, populares e apartidários, os Caras-Pintadas, As Diretas Já e as lutas contra a ditadura tiveram uma coisa que o movimento de 2013 (que deve ficar pra história como Revolta do Vinagre) não teve: um inimigo personificado. Desta vez o inimigo não tinha cara ou partido definidos. Não era um regime, uma pessoa ou uma proposta de revolução. Nada disso. O inimigo foram os 21 anos de descaso com a população brasileira por parte de todos os governos desde então. Não foram os 20 centavos. Aliás, ninguém reclamaria do aumento de 20 centavos, 1 real que fosse, se tivéssemos tido retorno do dinheiro que pagamos ao governo nas últimas duas décadas. Nesses últimos anos, tomando como marco o movimento dos "Cara-Pintada", nossa carga tributária aumentou absurdamente, entramos entre as 5 maiores economias do mundo, viramos credores internacionais, evoluímos para país emergente. Mas, pergunto, cadê o retorno? Esse dinheiro está indo para onde? Tivessem nos oferecido serviços púbicos de qualidade, não reclamaríamos dos aumentos. Vivemos, porém, em um país cada vez mais caro, mais rico e pior. Protestamos pelo fato de o poder legislativo, e finalmente percebemos que o principal buraco está lá, que eles são os verdadeiros comandantes do país, não ter feito nada desde a votação pelo impeachment do Collor. Ao menos nada em prol do Brasil. Aliás, nos últimos dias, acuado, fez mais do que nos últimos 21 anos. Não protestamos contra Lula, Dilma, FHC, Alckmin, Serra, Cabral, Anastasia, Paes, Aécio. Protestamos contra todos eles juntos, contra os partidos políticos brasileiros, sobretudo os dois maiores, que, além de serem exatamente iguais, em vez de proposta de país, lutam por proposta de poder.  Não há um vilão. Existem vários, os mesmos que, em tese, deveriam defender nossa Constituição, mas agem, há tempos, como se ela não existisse. É pedir demais que os governantes respeitem a nossa Constituição? Protestamos porque política no Brasil virou negócio, virou carreira (das boas) e, enquanto isso, nosso dinheiro vai sabe-se lá para onde. A questão é simples, estamos internamente muito aquém do que produzimos e da imagem que vendemos ao exterior. Não se trata de um país pobre que não tem condição de oferecer o mínimo de dignidade ao seu povo. Se trata de um país rico, mas cheio de ralos de dinheiro.

Assistíamos a isso passivamente até que os heróis do dia 17 de Junho saltaram do “deitado eternamente em berço esplêndido” ao “verás que um filho teu não foge a luta”.  Pobre dos políticos que acharam - como uma jornalista da Record - que a redução da passagem reduziria nossa indignação. Pobre daqueles que acham que vão se aproveitar eleitoreiramente deste momento histórico, personificando a culpa, jogando para seus adversários políticos e se eximindo de responsabilidade. Pobre daqueles que acham que esse é um momento transitório. Pobre dos que acham que o povo não aprendeu a reivindicar quando necessário. Pobre daqueles que acham que o futebol diminuirá nossa indignação. O povo cansou de ser feito de bobo e, após 21 anos sendo testados até o limite, acordamos, melhor fomos acordados. Surpreendentemente, em vários lugares do país, heróis foram às ruas reivindicar nossos direitos, iniciando um movimento popular que há tempos não se via por aqui. Nos testaram até o limite, o limite chegou. A bomba estourou, muito antes do que esperavam os políticos, muito depois do que deveria ter estourado.

Àqueles que estiveram nas ruas naquele 17 de Junho, precursores de um movimento histórico em nosso país, quiçá, uma  guinada histórica no destino Brasil, meu muito obrigado. O vandalismo, os rumos deste movimento, os desdobramentos, são assuntos para outra hora. Por ora, queria, tardiamente, agradecer aos heróis do dia 17 de Junho, que serão lembrados pelo nossos filhos, nossos netos e nossa história.

terça-feira, 26 de março de 2013

Qual será o problema?


Não moro em uma zona nobre de BH. Tampouco, moro em uma favela ou uma periferia violenta. Moro em um bairro de classe média, distante exatos 5 km da Praça Sete, o marco zero da cidade e 4,5 km da Lagoa da Pampulha. Meu bairro sempre foi tranquilo, conveniente, em que podemos fazer tudo a pé, tranquilamente.

Fiquei sabendo segunda que no sábado, mais ou menos na hora do almoço, há quatro quarteirões daqui, em uma rua movimentada, cheia de comércio, com sorveteria, lanchonetes, lojas de roupa, pet shops, em frente a uma padaria, um homem, não sei idade foi sumariamente executado por três bandidos. Não tenho a menor ideia do motivo, não foi um assalto, foi uma execução, talvez um playboy que devesse a um traficante, vai saber. De toda sorte, a violência está cada vez mais debaixo de nossos narizes.

E eu já tive muitas teorias sobre o tema, mas, cada dia mais estou deixando minhas teorias de lado para rever todos os meus conceitos. E estive pensando sobre essa invasora cada vez mais presente em nossas vidas. Continuo achando que a impunidade e o excesso dos Direitos Humanos em alguns casos são problemas sérios, acho que tem que acabar o quanto antes, isso seria um paliativo, sim. Mas o paliativo é necessário, já que as soluções em longo prazo tem um prazo muito longo pra quem vive hoje.

Me peguei perguntando a mim mesmo o que leva à maioria dos criminosos à bandidagem. Será que simplesmente a falta de oportundiade? Bom, é muito claro que existem pessoas com distúrbios sociais graves, que independentemente da condição social vão cometer crimes, claro. Mas e a maioria. Que o Brasil tem sérios problemas de educação é inegável, óbvio, até clichê. Será que é só isso? Tenho convivido com muita gente que diz como está difícil arrumar mão de obra qualificada. Outros, e uma vez que estive em um escritório do ministério do trabalho comprovei isso, procuram empregados independentemente da qualificação.

Pode ser, então, que embora a qualificação seja um problema sério, exista algo a mais. Algo está faltando. Existe emprego, mas não existe salário. Já vi acontecer com muita gente, abandonar o emprego porque o salário é baixo e sem pérspectiva de crescimento. Profissionais com nível superior não estão ganhando suficiente nem para se sustentar, imagina para sustentar a família.

Eis que surge uma oportunidade, no crime, arriscada, mas real de ganhar bem. Muito melhor do que em qualquer emprego. A sociedade em que vivemos exige isso da gente, ela desperta isso na gente, afinal, tudo pelo o que vivemos é dinheiro. A solução? Não faço a menor ideia, mas estou certo que alguma coisa tem que acontecer.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Os limites do politicamente correto


Sinceramente eu acho essa história de politicamente correto um verdadeiro saco. Mas os limites entre o que é piada e o que é ofensivo tem que ficar bem claro para as pessoas. E algumas, pelo que vemos, até justificam essa imposição do "politicamente correto". É um saco, para nós, e para eles, tratar um cego como deficiente visual. É idiotice querer que eu não chame um amigo de mais de 20 anos de negão, como eu sempre chamei, para chamá-lo de afrodescendente. É hipócrita achar que eu não vou, numa conversa de bar ou em meio de amigos não chamar um ou outro de viado, independentemente de sua orientação sexual. Regular isso é politicamente chato.

O que os alunos da UFMG fizeram, porém, ultrapassa qualquer limite. Eu, que estudei na UFMG, pela primeira vez tive vergonha de ter estudado lá. E por mais que tentem justificar a barbárie noticiada no início desta semana como o “império do politicamente correto”, e ainda que forçando muito a barra ela possa ser válida no caso da Xica da Silva (não é, mas vamos por meio segundo fingir que seja), os gestos nazistas não se justificam. O pior é ver que tamanha estupidez, racista, machista e desrespeitosa vem logo da Faculdade de Direito.

E eu tive muta vergonha de ser cria de lá. Do primeiro grau à universidade, estudei na UFMG, tá certo que bem longe da Faculdade de Direito, que não fica no Campus Pampulha, mas, ainda assim. Os futuros juristas do nosso país, pessoas que em tese deviam garantir nossos direitos,  propagando valores tão abomináveis e se divertindo com isso. Lastimável. E espero, sinceramente, até porque nós, ex alunos, os atuais alunos, funcionários e professores não nos sentimos bem em ver essa palhaçada associada a uma instituição pela qual passamos e tivemos orgulho em fazê-lo.

E que a punição seja clara e pelos motivos certos, que são basicamente as atitudes preconceituosas  racistas, nazistas, que aqueles belos idiotas sorriam em fazer. Não sejamos hipócritas, o trote com sujeira e zoação sempre existiu e sempre existirá e a Instituição pode até fingir que não via e que não sabia. Mas a gente sabe que não era bem assim. Eu mesmo sofri e dei trote. Fui sujo e sujei, mas sem nenhuma ofensa pessoal ou atitude preconceituosa.

E que a punição exemplar se estenda ao professor que ofendeu de maneira racista um aluno. E lembrar que eu fui aluno daquela escola de primeiro grau, em pensar que eu sempre quis e sempre tive orgulho de estar na UFMG. Só espero que a Instituição mantenha esse sentimento na gente, que ela puna todos os envolvidos e que mostre seu posicionamento com relação a atitudes deploráveis como esta. Mais. Que este posicionamento, se assim for tomado, seja de exemplo para sociedade, pois não podemos aceitar esse tipo de coisa seja lá onde for.  E que para isso não seja preciso esse exagero do politicamente correto, que seja simplesmente fácil de entender que respeito é essencial.

terça-feira, 19 de março de 2013

Bastonete do capeta


Hoje não vou ser nem polêmico nem mal humorado. O assunto hoje é triste. Qualquer ser humano, por pior que seja, por mais inimigos que tenha, por mais ojeriza que tenha à algumas pessoas, se ainda tiver algum resquício de humanidade, considera que algumas coisas são indesejáveis até para o pior inimigo. E do hall das coisas que não consigo desejar para o meu pior inimigo, talvez a principal delas seja um bastonete de menos de 10 centímetros, com uma brasa na ponta e um idiota na outra. Sim, não desejaria nem ao meu pior inimigo que ele fosse fumante. O que dizer dos amigos.

Enfim, enquanto essa porcaria não for proibida, a gente tem que aturar. Graças aos lampejos de bom senso, e até por demanda social, não temos que aturar isso mais em ambientes fechados. Mas, invariavelmente, quando vejo ou fico sabendo que alguém que eu considero coloca essa porcaria na boca… Eu sei, é o livre arbítrio, cada um faz da vida o que bem entender, não dá para fazer nada que não seja se chatear, torcer para que parem mas, admito, é foda.

Esse bastonete infeliz, não torna ninguém melhor, nem mais legal, tampouco mais aceito no grupo. Nada disso. Serve para viciar, algo que se você não tem não interfere em nada na sua vida, mas quando se se deixar levar, você se torna escravo. É um crack. E se ao pior inimigo eu não desejo, o que eu sinto quando vejo alguém que realmente gosto fazendo isso consigo mesmo, é incrivelmente ruim a sensação de impotência quando a gente vê alguém com quem nos importamos fazer isso com elas mesmas.

A indústria tabagista, que tem um dos maiores lobbies do mundo, e, por isso, ainda segue atuando, embora, aos poucos, com a pressão social, cada vez menos, não interfere só na vida dos fumantes. Até porque a vida de cada um de nós não é só nossa. No entorno de cada fumante, tem um filho, um pai, uma mãe, um amigo, um marido, uma esposa, sempre tem alguém sofrendo com a auto depreciação que as pessoas mal se dão conta que fazem, em troco de um nada.

Mas, o que podemos fazer? É o livre arbítrio. Eu, particularmente, acho que a maconha é menos problemática do que tabaco, enfim… Espero que um dia esse bastonete maldito esteja extinto. Mas enquanto isso, só posso torcer, desejar e pedir para que as pessoas parem. Quem sabe algum dia eu consiga que ao menos uma pessoa goste mais de si mesma e largue o vício?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Eu sou idiota


E não é pouco idiota. Eu diria um completo imbecil. Minha única dúvida é se eu nasci assim ou se eu fiquei assim. Acho que um pouco de cada. Talvez seja até obrigação dos nosso pais nos criar um pouco como idiotas. Seria muito cruel com as crianças não tratá-las como tal. Já pensou que triste seria desiludir uma pobre criança, inocente e pura? Talvez nem seja pela crueldade que implicaria acabar com nossa idiotice quando novos, talvez seja pela igual idiotice dos pais em ter esperança em um futuro melhor, futuro que poderia ser construído por seus filhos.

Ledo engano. Nascemos e logo somos criados acreditando que o bem sempre vence, os desenhos animados que o diga. Aliás, tal ilusão não é tão dissipada quando crescemos, vide novelas e filmes. Claro que entendemos que a vida real não é bem daquele jeito, entretanto, naquela hora, o final tão esperado é tido como, no mínimo, nosso ideal, o nosso anseio pelo final feliz. Sem contar no mundo ideal vendido por nós publicitários. É um mundo que queríamos viver, o mundo das propagandas de margarinas, dos bancos perfeitos, das festas regadas à Coca Cola, da beldade atrás de um copo de cerveja. É, acho que sou mais idiota que a média das pessoas.

Cresci sonhando, cresci acreditando que todos esses sonhos poderiam ser realidade. Coisa de criança. Aos poucos vemos o tempo passar e, quando nos damos conta, trombamos com a realidade. Nossos sonhos  pueris não serão realizados. Pessimismo? Não. Pergunto quantos nós, hoje, realiza o que sonhava de garoto? Pior. Mesmo na adolescência e no início da vida adulta, época em que já notamos que nossos verdadeiros sonhos infantis já se tornaram inviáveis, criamos expectativas para as nossas vidas que raramente são cumpridas. Pergunto outra vez, quantos de nós estamos, hoje, onde planejávamos e vislumbrávamos estar há  5 ou 6 anos?

E a idiotice se manisfesta em vários outros aspectos. Afinal, cresci acreditando que as pessoas pudessem ser boas, que o mundo podia mudar e que eu podia fazer parte dessa mudança. Sempre pensei que havia uma alternativa ao sistema, que a vida era feita por objetivos e que o caminho era mera trajetória. Pensava que ser feliz não demandava esforço, tampouco que isso seria embaraçoso e que a felicidade fosse alcançável. Pensava que o tempo no mundo não era desperdiçável, que era hábil para as nossas realizações. Os interesses eram sempre os comuns e as Instituições acima de qualquer suspeita.

Um dia, porém, você descobre que, por mais que a gente queira acreditar em Rosseau, Hobbes estava certo: “o homem é o lobo do homem”, que em geral as pessoas querem te eliminar, que a sociedade é uma mera concorrência entre animais pseudo-domesticados. Mudar o mundo é impossível, e por mais que você se comporte como desejaria que o mundo fosse, por mais que você escute a velha parábola do beija-flor e do leão no incêndio da floresta, no final das contas o beija-flor termina em uma luta solitária. O sistema não te deixa opção, ou você se enquadra nele ou será engolido por ele. Percebe-se também que a vida não é feito de objetivos, e que a vida na realidade acontece no caminho. É duro percebe o quanto é difícil não ter vergonha de ser feliz em uma sociedade que a imagem é tudo, aliás a felicidade, como diz aquela música brega, não existe. O que existe são momentos felizes.

E o tempo é algo extremamente fugidio  As 24 horas que existem no dia são insuficientes, aliás a vida inteira é insuficiente, e sabe-se lá o que vem depois dela. O mundo em que vivemos, infelizmente, é feito única e exclusivamente de interesses, e garanto, não são do bem comum. Mas precisamos ser iludidos para conseguir viver. E as instituições, cada vez mais mandando no mundo e cada vez menos pensando nele. E, apesar de existirem as boas ações de muitas pessoas, por mais que possam ser maioria, são impotentes em face aos poucos poderosos que determinam nossos rumos.

Mas, eu, bom, eu sou idiota. E ter a consciência da minha idiotice não a diminui em nada. Pelo contrário. Sigo acreditando que um dia esse tal mundo possa mudar, que as pessoas possam ser felizes e honestas, que o bem comum será pensado, os objetivos partes da vida e os caminhos meras trajetórias. E do alto da minha idiotice, sigo com meu mal humor incontrolável e incorrigível, meu descontentamento e meu incomodo com a humanidade. Mas, insisto, eu sou um grandíssimo idiota.



terça-feira, 12 de março de 2013

Câmara Universal Carismática Apostólica Batista do Reino de Deus


O Brasil caminha a passos largos para se tornar medieval. Apesar de termos, em situação análoga, evidentemente, “senhores feudais” em alguns rincões brasileiros, essa regressão estúpida está cada vez mais perto do âmbito nacional. Digo isso, porque após centenas de anos de batalhas para se conseguir um estado laico, marcado pela tolerância, sem influência da Igreja, hoje temos uma bancada que legisla segundo à bíblia. Os parlamentares religiosos estão cada vez em maior número e mais influentes no Brasil. Os fundamentos e princípios básicos de direito e da democracia estão, aos poucos, submergindo aos preceitos religiosos. Estamos virando uma teocracia, quase um Irã cristão.

Não que a política deva ser exclusividade dos ateus. Afinal, em um país como Brasil, igreja é igual à clube de futebol. Quase todo mundo tem, e com todo direito, sua predileção. O não podemos permitir é que política e religião se confundam. O poder legislativo, embora não pareça à maioria das pessoas, influencia muito nossas vidas. Quase todos nossos anseios diários e reclamações cotidianas com a política dizem respeito a este poder. Muitos morreram defendendo um país livre, democrático, com liberdades individuais, sacramentadas na nossa respeitabilíssima Constituição de 1988. E qualquer país de respeito, que pretende ser livre e respeitar à liberdade individual das pessoas, devem ser governados conforme à Constituição e não segundo à bíblia. Afinal, graças à Deus, não sou obrigado a crer na bíblia como livro sagrado, não sou obrigado à interpretá-la conforme padres e pastores e, acima de tudo, nada me obriga a ser cristão. Tampouco ser religioso.

Voltaire já dizia, em outras palavras, que poderia não concordar com que o outro diz, mas que, até a morte, defenderia  o direito do outro em dizê-lo. O mesmo deveria valer para esses parlamentares. Não concorde com as coisas que as pessoas fazem com sua liberdade, mas não as prive de tal liberdade. No presente momento, por mais paradoxal que seja, defendo que líderes religiosos não deveriam assumir cargos públicos, uma vez que eles não conseguem distinguir religião de estado nem bíblia de Constituição. Especificamente no Brasil, a bancada cristã é que tem se tornado a maior ameaça às liberdades individuais, logo os cristãos, que tanto defendem o fim das teocracias muçulmanas e a instauração da democracia…

O cúmulo desse teatro dos horrores foi a eleição (e por incrível que pareça sou obrigado a concordar com a Xuxa), na última semana, para presidir nada mais do que a comissão de Direitos Humanos, um deputado, pastor, cujo o nome faço questão de não lembrar, que é racista, homofóbico. À frente da comissão de Direitos Humanos do congresso temos uma pessoa que não respeita os seres humanos. Não se espante se o Brasil, cedo ou tarde, trocar a Declaração Universal dos Direitos Humanos pelos 10 mandamentos. Amém.

quinta-feira, 7 de março de 2013

E o Show Continuou…


Há cerca de um mês, o espetáculo da mídia, findado o relevante da notícia, era a tragédia de Santa Maria, Rio Grande do Sul. E o show acerca de tal tragédia durou um tempo considerável, durou até que não tinham mais pseudo personagens para entrevistar, histórias para contar e que a audiência, enfim, se cansou. Ao completar um mês da tragédia, algumas homenagens voltaram à mídia. Normal e digno, sem nenhum  estardalhaço. Enfim, os mortos descansaram em paz, e os parentes puderam ter o merecido e consternado luto igualmente em paz.

Mas o show tem que continuar e um mês depois da tragédia de Santa Maria, um novo evento, que a mídia agradece eternamente, surge: o julgamento do goleiro Bruno. É claro e evidente, até indiscutível, que não é um julgamento comum e que merece a cobertura da imprensa. A cobertura. O que vemos, porém, é um BBB 13, o Big Bruno Brasil. É um reality show dos mais rentáveis e com uma das maiores audiências do país. Parentes, conhecidos, médicos, advogados, consultores jurídicos, especialistas, peritos criminais, qualquer um que já teve qualquer relação com algum dos envolvidos, viram pseudo celebridades e ganham seus 15 segundos de fama. Advogados, promotores e juízes dão entrevistas de 5 em 5 minutos. Particularmente, eu entendo que quando advogado, promotor e juiz começam a aparecer demais é sinônimo de merda. É um começo errado. A visibilidade é tanta que advogados ofereceram dinheiro ao réu principal (condição apenas simbólica) para defendê-lo, ora é a chance da carreira deles. O delegado responsável pela investigação, usando a popularidade conseguida com o isso, se elegeu vereador em Belo Horizonte. Como disse, sinal de merda à vista.

E pobre coitado do Bruninho, filho do goleiro com a vítima e, supostamente, pivô desse caso cinematográfico. Filho de uma modelo, nome técnico dado à atriz pornô (eu mesmo já vi um filme com ela) que ganhou esse status para garantir o show, que exige um maniqueísmo idiota e moralista em que o lado considerado bom não pode ter defeitos, logo sua profissão original não seria bem vista. Enfim, filho de uma “modelo” tido como morta supostamente por querer ascender na vida facilmente, o que, ainda que moralmente duvidoso, não justifica seu destino trágico. As “vítimas” dessas mulheres que se previnam. Seu avô, por quem sua mãe foi criada, era um foragido da justiça, que não se conteve ao ver os acontecimentos no noticiário, e, quando foi atrás do direito sobre o neto, foi, enfim, justamente preso. A avó, uma mulher muito estranha, que abandonou o avô e a mãe do garoto quando esta ainda era muito nova. Uma mulher que não se preocupava com filha, tampouco, ou muito menos, com o neto. O garotinho não era bem quisto pela avó,  até que ela descobriu que a criança poderia ser uma interessante fonte de renda, já que a pensão dele seria bem generosa. Hoje o pobrezinho está com ela.

O pai do Bruninho, este merece um parágrafo especial. O seu pai, o goleiro ex Atlético, Corinthians e Flamengo, está na condição simbólica de réu no caso da morte de sua mãe. Condição simbólica porque todos sabemos o desfecho: Bruno será condenado. Sabemos disso desde o dia em que seu nome foi envolvido à morte de Eliza Samudio, a mídia divulgou e o público comprou a ideia. A partir do momento em que o caso ganhou a comoção nacional, a opinião pública definiu o Bruno como culpado. E assim o será. Desde as investigações sabemos disso. Quando crimes ganham tamanha repercussão é sempre assim, os Nardoni que o digam. E os donos daquela escola infantil, acusados injustamente de pedofilia, cuja opinião pública destruiu e só depois conseguiram provar que nada mais era do que um boato inventado por uma mãe irritada, também. Meus caros, quando a opinião pública entra, as investigações são acompanhadas pela imprensa, quando isso acontece, raramente ela feita com correção e isenção. Voltando ao caso dos Nardoni, uma série de falhas na perícia foram apontadas. Aliás, perícia desnecessária, já que o casal já estava condenado.

Não digo nem que os Nardoni nem que o Bruno sejam inocentes. Não entendam a questão dessa maneira, nem me julguem por isso. Aliás, se alguém entender assim só vai me ajudar a provar meu ponto. De toda maneira, desde a primeira entrevista do Goleiro, ainda no Atlético, desde o primeiro caso quando o goleiro foi preso em um pega, abafado como manobra perigosa, era perceptível que Bruno não tem o melhor dos caráteres. Perceptível também é que era um sujeito frio, calculista e ardil e, como tal, não duvido nada que se lhe fosse conveniente, ele mataria. Entretanto, sem querer bancar o advogado do diabo, um homem frio, calculista e ardil, apesar da morte da Eliza ter todas essas características, se estivesse na posição do Bruno, dificilmente correria o risco de terminar no tribunal, ainda mais ganhando mais de 200 mil e com pré contrato assinado para ir à Itália. Um homem frio, calculista e ardil, pagaria uma bolada para a Eliza sumir no mundo, ou dava um generosa mesada para ela ficar longe, ou mesmo assumia o Bruninho e pagava o que o juiz determinasse. Eu ficaria muito mais convencido caso a morte de Eliza fosse algo mais escancarado, como em um rompante de raiva e passionalidade o goleiro a matasse. A não ser, sem querer criar nenhuma teoria da conspiração, que os motivos de uma possível chantagem da vítima fossem muito maiores do que um filho bastardo.  

De qualquer maneira não é isso que interessa. Até porque, repito, não vai me surpreender se o Bruno for culpado. Da mesma forma que não ia me espantar se ficasse provada sua inocência. A questão é muito maior do que a culpa ou não do goleiro. Essa culpa é trabalho para a polícia e a justiça, com isenção. E a falta dessa isenção é o que me preocupa. Qualquer cidadão anônimo, cujo delito, seja ele qual for, não cause comoção da opinião pública, é inocente até que se prove o contrário. O caso que comove a sociedade, como é o caso do goleiro, é o inverso. O réu é culpado até que se prove o contrário. E não adianta tentar falar em isenção dos envolvidos, afinal o juiz está submetido a uma forte pressão e aos holofotes da imprensa e do público. O tribunal idem. O processo jurídico, as audiências, são meras formalidades. Bruno já é um condenado.

E a mídia se delicia com isso. A culpa do Bruno dá audiência. Entrevistas com gente direta e indiretamente envolvida, tudo para que a opinião pública se mantenha firme, garantindo o Ibope. Uma dessas entrevistas, inclusive, ganhou minha atenção. O entrevistado era o primo de Bruno, menor de idade à época e cuja maioridade não pareceu diminuir sua confusão mental. De toda sorte, uma entrevista pertinente jornalisticamente, não fosse a guerra psicológica em que ela se tornou. A repórter, através de uma narração posterior a entrevista, legendava, conforme sua interpretação, os gestos e as palavras do entrevistado. Mostrava ao público suas impressões. Algumas com as quais eu até concordo com a repórter, outras em que penso que a jornalista transformou simples figuras de linguagem em contradição. Posso até não estar correto em minha interpretação, a discussão não é essa. A discussão é porque não deixar que o público fizesse sua interpretação. Não parecia difícil perceber os pontos que ela chamou a atenção. A entrevista, portanto, se transformou em uma guerra. O primo do goleiro, nervoso e sem norte, se contradizendo e em meio a um estado de confusão mental, parecia estar disposto a qualquer coisa para defender seu primo. Mentiras que pareceram óbvias devido até à inconsistência de suas inverdades. Do outro lado, sobretudo nas passagens gravadas à posteriori, a repórter queria condenar o goleiro a qualquer custo, usando sua interpretação das expressões e trechos do entrevistado para fazê-lo. Ela, com a vantagem da edição e da clareza, coisa que ele não tinha, evidentemente, se saiu melhor.

A questão, insisto, não é se Bruno é culpado ou não. Isso não me compete. Não tenho acesso à investigação, aos autos e nem tenho mais paciência para cobertura de cada segundo do julgamento mais esperado da década – superando o dos mensaleiros . A questão é a insegurança que gera uma justiça que funciona como um reality show: milhares de câmeras acompanhando passo-a-passo todos os envolvidos para que o público possa julgar.  É, o show tem que continuar…

terça-feira, 5 de março de 2013

E se fosse no Brasil?


A violência no Brasil já é banal. Nos estádios, infelizmente, os torcedores, em grupo, acabam tendo uma licença do código penal para cometer atrocidades. Afinal, se compararmos a mesma conduta de uma pessoa no bar e no estádio de futebol, se elas resultam na mesma consequência, as punições são distintas.  E não interessa se a Bolívia é um país atrasado, pobre e com mil problemas sociais. Sim é. As pessoas que moram na fronteira com este país, definitivamente não têm as melhores referências sobre a população local, mas isso é normal em qualquer fronteira. O país que muito irritou o brasileiro em 2006 quando Evo Morales desafiou, com sucesso, o poderio brasileiro e nacionalizou a Petrobrás, que investiu fortunas na extração de gás natural boliviano. É verdade.

Vendo pelo nosso lado, claro. Mas, se pararmos para pensar, acabamos por fazer na América do Sul o papel de Estados Unidos. Somos o país mais rico, mais promissor, que dita as regras econômicas e políticas do continente. Nossas empresas estão atuando nos países da América Latina, mandando remessas de lucro para o Brasil. Somos a referência, o problema e, até, o Porto Seguro. Muitos latino-americanos, sobretudo bolivianos, vivem no Brasil clandestinamente em regime, inclusive, escravo, principalmente nos porões de confecções e tecelagens em São Paulo. Outros latino americanos, buscam o Brasil e a Argentina como países de oportunidade, a chance de ganhar algum dinheiro.

O real vale muito mais do que qualquer uma dessas moedas. Um boliviano, moeda local, compra cerca de 28 centavos de real.  Nossa moeda é motivo de sobra para que qualquer turista brasileiro seja tratado como rei. Entretanto, nossa imposição e força econômica é motivo para qualquer país sul-americano ter inveja e raiva do Brasil. Ainda mais na Bolívia, país cujo governo demonizou o Brasil a fim de nacionalizar a Petrobrás e cujas relações entre os moradores da fronteira não são das mais salutares. Para piorar, devida à facilidade de se ingressar em uma faculdade boliviana, principalmente de medicina, estudantes brasileiros, muito melhor preparados que os locais, ocupam grande parte das vagas no ensino superior boliviano, principalmente em Santa Cruz de La Sierra, reduto tupiniquim. Enfim, qualquer disputa entre brasileiros e bolivianos será um Davi contra Golias.

E em um dia de Davi contra Golias, tendo em vista o poder de investimento, mas em um dia de Festa na cidade de Oruro, uma partida de futebol entre um time boliviano e um brasileiro. Nesta, um bandido, destes que a banalização da violência, especialmente quando o futebol é o plano de fundo, atira um sinalizador, um morteiro, caracterizando um claro dolo eventual, contra a torcida adversária. O artefato atingiu um garoto de apenas 14 anos, que saiu de casa para ver seu time e não voltou. Assassinado covardemente sem nem ter chance de ver como morreu. É evidente que, em termos oficiais, os bolivianos deram exemplo de como não se fazer. Uma aula de insegurança no estádio. Contudo, com todas as falhas no sistema de segurança e organização de eventos bolivianas, a primeira morte registrada em um estádio boliviano aconteceu naquela quarta feira e foi provocada por um brasileiro. 

A polícia local fez o que só ela tinha competência e o que restava a fazer, depois das inúmeras falhas de segurança que propiciaram o ocorrido: prenderam os suspeitos. A comoção nacional que tomou conta da Bolívia, que é plenamente justificada, se tornou ainda maior pelos protagonistas dos fatos serem brasileiros. Apesar de não darem exemplo em nada, há de se convir que, por aqui, a justiça tende a ser conivente com os crimes no futebol, o que faz, até, que alguns defendam uma legislação específica. Para mim essa legislação existe e se chama Código Penal, enfim. A punição esportiva, esta não me interessa, o importante é punir quem tem de ser punido, e como tem que ser punido. Em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil. Se eu pegar um sinalizador e mirar em grupo de pessoas e alguém falecer eu vou ser preso. Simples assim.

Parte da imprensa brasileira, porém, tem comprado a ideia e as desculpas ridículas da diretoria de uma das torcidas organizadas do Corinthians.  Sério, falta pouco para essas pessoas culparem o jovem Kevin pelo seu próprio assassinato. Primeiro vamos ao vídeo. É claro e evidente na imagem que o torcedor que disparou o artefato não agiu sozinho. No momento em que o morteiro foi disparado em direção à torcida boliviana, e não para cima para comemorar, como alega a principal organizada do Corinthians, da qual a maioria dos presos na Bolívia pertence, um bandeirão é estendido para que o meliante fugisse por baixo e, segundos depois, aparecesse no acesso às arquibancadas, o que evidencia ainda mais a intenção do imbecil. Após a prisão dos 12 brasileiros na Bolívia, começou uma disputa diplomática noticiada na imprensa, em que, em vez da busca pela imparcialidade,  e pela notícia, optou-se por uma defesa imbecil. Não quero condenar de antemão os 12 brasileiros que lá estão. Entretanto, tem que ser no mínimo mongoloide para comprar a versão da Organizada do Corinthians, quase aplaudida por parte da imprensa, de que o autor seria um menino de 17 anos, que já estava no Brasil e que todos os 12 presidiários brasileiros na Bolívia são inocentes.

Por partes. É muito conveniente jogar a culpa em um associado de 17 anos. Primeiro porque ele não pode ser deportado, segundo que só cumprirá medidas socioeducativas,  terceiro porque seu rosto e nome serão preservados e, por último, porque, assim que completar os 18 anos, sua ficha estará limpa. Por isso, pela primeira vez na minha vida, vejo um advogado de defesa tão empenhado em culpar seu cliente e uma promotoria tão focada em inocentá-lo. Não duvido que, apesar da conveniência, um garoto de 17 anos poderia sim ter cometido a burrada. Ora, mas voltemos aos fatos e às declarações. Primeiramente, a Torcida Organizada, chamando a todos de burros, disse que proibia o uso de sinalizadores. Então porque 2 dos brasileiros detidos na Bolívia tinham sinalizadores? Tomaram do moleque? Pior. Os dois detidos que portavam sinalizadores, portavam artefatos do mesmo lote do que matou o jovem Kevin. Isso já seria motivo suficiente para suspeitar desses dois, embora, apenas o resultado do exame que busca pólvora na mão dos brasileiros poderá afirmar que eles usaram um sinalizador. 

O caso não parece tão complicado. Feito o exame, analisada as imagens, julgue-se os culpados e os cúmplices. Repito, a cumplicidade fica evidente na hora em que um grupo de torcedores levanta a bandeira para o autor do disparo fugir. Por outro lado, a Bolívia mostra ao Brasil um reflexo da justiça daqui: em casos de comoção nacional, todos são culpados “a priori”. Entendo a prisão preventiva, uma vez que é necessária a permanência daqueles cidadãos no país vizinho. E, sem residência fixa na Bolívia, a justiça local não poderia correr o risco dos suspeitos regressarem ao Brasil. Entretanto, os 12, dos quais apenas 2 podem ser provados como culpados da tragédia, estão previamente condenados pela comoção que gerou no vizinho pobre. A revolta, diga-se de passagem, aumentou após a divulgação que alguns torcedores do Corinthians, filiados à mesma organizada, se hospedaram em um hotel de luxo em Oruro e deram o calote. Não é espantoso que os bolivianos estejam revoltados.

Espantoso são os apelos para a interferência do presidente Lula, ou a apelação pela soltura imediata dos suspeitos. Mais espantoso é como estão tornando todos vítimas de uma injustiça e colocando um garoto de 17 anos como bode expiatório. A punição esportiva não vem ao caso. Sobre ela, posso dizer apenas que a Instituição não tem controle sob sua torcida e que a maioria desta torcida reprova a boçalidade na Bolívia. Mas alguma coisa teria que ser feita esportivamente, tanto com o Corinthians quanto com o San José e Comenbol, dono do estádio e organizadora do evento. Não sei quais as punições, mas elas são necessárias às três instituições envolvidas.

O que quero ponderar, contudo, é uma hipótese aloprada. Imagine se fosse o contrário. Os torcedores de um time de país sul-americano qualquer – sobretudo se fossem da Argentina – viessem a um estádio brasileiro, não importa qual. Dentre os torcedores, em sua maioria pacíficos, um débil mental, acobertado por mais meia dúzia de retardados,  atira contra a torcida brasileira um sinalizador. Este sinalizador infelizmente atinge uma criança brasileira que estava pacificamente na arquibancada.

Façam o esforço desse exercício da imaginação. Imagina como estaria a imprensa daqui. Imagina como o povo brasileiro se sentiria. Tenho a mais absoluta certeza, que comportaríamos como os bolivianos. Certamente não aceitaríamos a libertação dos suspeitos e nem compraríamos a versão que a defesa tentou forçar goela à baixo da Justiça do país de Evo. Versão esta que, mesmo com o apoio de um programa de televisão de bastante audiência, não conseguiu convencer a nós brasileiros. O fato é que a Bolívia não está dando exemplo ao Brasil, como muitos afirmam, e nem está sendo excessivamente desumana, como outros clamam. O que espero é somente que a justiça seja feita, sem nenhuma intervenção diplomática do Brasil que ultrapasse o auxílio jurídico e, principalmente, que não tentem fazer parecer um acidente, uma fatalidade e que a consequência é um martírio de inocentes. Uma garoto morreu por nada. E isso não é pouco. Por isso, doa a quem doer, a única coisa que esperamos neste caso é a justiça. 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tudo tem limite


Quem me conhece sabe que musicalmente sou eclético. Música é momento e tem, cada uma, sua proposta. Existem músicas que me fazem pensar e canções que são só para dançar. A música que escuto quando estou querendo relaxar em casa, não é a mesma que colocarei se for DJ em um churrasco. Para se ter uma ideia, durante a minha vida, sem nenhum arrependimento, já fui em shows como o do Belo, uns quatro “Axé Brasil”, Neguinho da Beija Flor, Arlindo Cruz, Lulu Santos, Titãs, Engenheiros, Jota Quest, O Rappa, Capital Inicial, Ringo Starr, Paul McCartney, Chico Buarque. Falando apenas dos que, de pronto, vieram à minha cabeça.

Gosto de todo tipo de música, embora tenha músicas que eu não goste, não tenho nenhuma restrição a estilo musical, ou mesmo a artistas. Música boa é aquela que, em um determinado momento, você quer ouvir. Acho, ainda, de uma arrogância e preconceitos descabidos dizer que alguma música, ou estilo musical, são piores, são coisa de pobre ou mesmo falta de cultura. De novo, a conta é simples, existem músicas para relaxar, para pensar, para dançar e até para zuar.

Isto é um fato, mas, sinceramente, tudo tem limite. E o limite foi atingindo. Bom, ao menos se a notícia que circulou na internet na terça feira for verdade. Nada, absolutamente nada, contra, provavelmente até curtiria muito em qualquer festa, mas eleger a música “Passinho do Volante” do Mc Federado e os Leques como música oficial da copa, me perdoem, ultrapassa qualquer limite. Insisto que não julgo se a música do carnaval 2013 é boa ou ruim. Acho, até, que, ao que se propõe, é muito boa. Entretanto, a música oficial da copa tem coisas mais importantes para representar. A composição de Shakira para a Copa da África, belíssima, por exemplo, falava do continente Negro, uma vez que foi a primeira copa no continente africano.

A copa do Brasil, e não entro no mérito de ser a favor ou contra, da corrupção e dos problemas, em tese deveria representar o sentimento do povo brasileiro, sobretudo no que tange ao futebol. Fico imaginando como os mestres da música popular brasileira estão se  sentindo, sendo preteridos por uma letra tão significativa. Com todo respeito, a copa merecia algo, no mínimo, mais elaborado. Na minha modesta opinião, não seria necessário uma nova composição. Creio que poderia se votar em duas opções de músicas que, independentemente da idade, gosto musical, está na ponta da língua da maior parte da população e que representam muito bem o sentimento do brasileiro.

A primeira, samba enredo da União da Ilha, chamado “É hoje”. A outra, do eterno Gonzaguinha, que tinha o defeito crônico de torcer para o time errado, se chama “O que é, o que é?”. Com a primeira frase de cada uma delas, tenho certeza qualquer um identificará: “Minha alegria atravessou o mar” e “Eu fico com a pureza da resposta das crianças”. Ou qualquer outra que represente o Brasil.

Nada contra o funk e a musiquinha grude do Mc Federado, mas temos coisa melhor e mais representativa para oferecer ao mundo. Espero, do fundo do meu coração, que essa seja apenas uma pegadinha da Internet. Se bem que, considerando a logo da copa e tudo que foi feito para o evento até hoje, até que o funk grude do Mc Federado cai bem.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Falha da Democracia


A corrupção é inerente à democracia. A frase, que ouvi de um respeitado professor  universitário, por mais chocante que possa parecer, é a mais pura verdade. Não que seja contra a democracia, mas, da mesma forma que ela é a melhor forma de governo encontrada até hoje, é fato que todas as formas de governo já instituídas na humanidade têm defeitos, e a democracia não é exceção.  Em verdade, a democracia, para chegar ao ponto em que vivemos hoje, precisou passar por várias crises. Afinal, como entendem a grande maioria dos doutrinadores da área, ela não pode ser a ditadura da maioria.

A voz do povo nem sempre é a voz de Deus. Isso é um fato e, infelizmente, comprovado das maneiras mais sangrentas em diversos pontos da história, o que não vem ao caso neste momento. O importante é ressaltar que é essencial que as minorias tenham voz e direito na sociedade, para que não se tenha um massacre, ainda que ideológico –e esse seria o menor dos prejuízos -, dessas pessoas. No Estado Democrático de Direito, que é o Estado em que vivemos, as minorias têm voz e não são massacradas pela maioria, tudo isso, graças ao poder legislativo e o voto por coeficiente eleitoral.

Embora muita gente não entenda, o poder legislativo é a única forma de a minoria ter voz atuante na política. Essa minoria, no parlamento, pode, até se retirando e impedindo o quórum de votação, defender o interesse das pessoas que representam. É algo chato e complexo de se explicar, mas, em síntese, como os votos são por coeficientes, as minorias colocam candidatos, que jamais conseguiriam nada no poder executivo, no legislativo, onde, apoiado por outros deputados com a mesma ideologia, pode ser ouvido e atendido. Dois exemplos disso, em extremos opostos ideologicamente, é o deputado Jair Bolsonaro, conservador ao extremo, e Jean Willys, um deputado vanguardista, que, por exemplo, assume com afinco a causa dos homossexuais - ele mesmo é declaradamente homossexual.

Essa possibilidade de manifestação das minorias é essencial à democracia, louvável e imprescindível à sociedade. Entretanto, tudo tem seu lado negativo, e, infelizmente, a possibilidade da minoria ter sua voz, proporciona algumas distorções funestas na política. A questão é simples, se por um lado é importante que a minoria possa garantir sua representação, por outro esta lógica é que permite que alguns corruptos, tidos como ruins pela maioria da população, se perpetuem no poder. Tomemos uma cidade como Belo Horizonte, de cerca de 2 milhões de habitantes, da qual já fiz, à trabalho, várias pesquisas sobre eleições legislativas. Um vereador, dependendo do partido, pode ser eleito com 4 mil votos. Com 9 mil é quase certa a eleição em qualquer partido e o mais votado em 2008 teve cerca de 15 mil. Comparado ao número de eleitores é uma quantidade mínima de votos. Votos que não representam a maioria.

Em uma escala maior, evidentemente, isso se reproduz em âmbito federal. Ou seja, para se eleger deputado, é necessário uma quantidade de votos que não representa a maioria absoluta das pessoas. E a reação natural ao ver algo na política que nos choca, é primeiro se indignar e depois culpar os eleitores do protagonista da situação com a famosa pergunta: “como é que tem gente com coragem de votar nele?”. Essa é a pergunta errada. O certo seria perguntar: “o que ele faz para agradar a parcela da população que vota nele?”. O raciocínio é simples. Voltando ao exemplo de BH, se um vereador precisa atender e representar sucessivamente cerca de 9 mil pessoas para ir à câmara por qualquer partido, se quando eleito, independentemente de sua conduta, ele representar cinco bairros, assisti-los e dar publicidade a isso, é bem provável que ele se reeleja. E, diga-se de passagem, é legítimo que as pessoas continuem votando nele, uma vez que ele cumpre seu papel mediante a esta parcela da população. Em outras palavras, o seu corrupto é o benfeitor dos outros.

E não é essa a única distorção da democracia, que, usada de maneira inescrupulosa, transforma mecanismos legais e necessários à sociedade em problemas à mesma. Tão importante e necessário quanto à representação e a voz das minorias no legislativo, é a existência de Três Poderes que se fiscalizam e que limitam o poder do outro. A importância é até óbvia, a supremacia de qualquer um dos poderes acabaria por configurar uma ditadura. É, deveras tenaz a necessidade de três poderes se controlando. Por outro lado, como tudo, isso tem um lado negativo. Pasmem, mas essa distribuição de poderes, da maneira que é feita no Brasil, têm consequências indesejáveis. A primeira, até menos grave, é o fato de que os salários dos magistrados – único poder que se entra por concurso – serão sempre conforme sua reivindicação  uma vez que a parada do judiciário ou um confronto com o mesmo implica na impossibilidade de funcionamento das outras esferas. Além disso, cargos eletivos – sobretudo no legislativo – também ficam com salários exorbitantes, afinal são eles que decidem sobre isso, e qualquer veto do executivo pode significar uma retaliação que implicaria na inviabilidade de um governo. Por fim,  mais grave e mais chocante, esse sistema, de certa maneira, quase que obriga expedientes como o mensalão.

Seja ele o tucano ou o petista, um governo sem o legislativo simplesmente não funciona. Todos sabemos, por exemplo, que a renúncia de Jânio Quadros nos anos 60 se deveu, basicamente, ao fato de seu governo se tornar inviável, uma vez que o legislativo não apoiava nenhuma medida vinda do executivo. A lógica é simples: uma vez que o legislativo serve para criar e aprovar leis, de maneira que a nação não se torne refém da vontade do executivo, tornando-se, assim, uma ditadura, não adianta que o governo tenha os melhores planos e medidas se o legislativo vetar todas. É impossível levar um governo através de medidas provisórias e decretos. Na teoria, em um congresso em que os interesses da nação fossem levados em conta acima de tudo, como deveria ser, os bons projetos do governo seriam aprovados e os maus reprovados. Mas não funciona bem assim. Os interesses acabam sendo partidários, em uma briga insossa e improdutiva de situação e oposição, que, sinceramente, em seus principais expoentes, são exatamente a mesma coisa.

Além disso, e os juristas que discordarem que se fodam, acontece uma aberração, uma anomalia no congresso brasileiro. Aliás duas em uma. A primeira é que os partidos exigem, de várias formas, que seu congressista vote e defenda conforme os interesses partidários. Em um país com partidos de ideologias bem definidas, em que as pessoas se filiam por crer em tais ideologias, pode até ter sentido. Por aqui, conforme um estudo sociológico francês, apenas um partido segue essa linha. Ou seja, de todas as milhares de legendas, apenas uma segue absolutamente sua ideologia ( com a qual, particularmente, discordo até a última gota, mas, seguindo a filosofia de Voltaire, defendo até ao morte o direito deles de defendê-la). Tal partido é o DEM. Os outros, em geral, são escolhidos pelos candidatos pela facilidade de se eleger. Políticos trocam de partidos como trocam de roupas, suas ideologias pouco se diferenciam e o interesse se resume em  eleições. E são esses partidos vazios que definem os votos de nossos representantes.

A consequência dessa aberração, ou melhor, um dos pilares que a sustenta, é, e mais uma vez que se fodam os questionamentos dos juristas, o fato do voto parlamentar ser secreto. É absolutamente ilógico. Ora, os parlamentares são nossos representantes, uma vez que nos tempos atuais, uma democracia participativa como a grega, em que todos os cidadãos participavam das decisões, é sociológica e logisticamente impossível - seria como se todas os projetos de lei tivessem de passar por referendo ou plebiscito popular, o que, nos dias de hoje, representaria um caos. Por isso elegemos parlamentares para nos representar. O voto dele mediante a determinado projeto, muito mais que dele, é seu e dos outros milhares ou milhões que ele representa. Logo, eu deveria ter a obrigação e o direito de saber seu voto, afinal, ele também é meu. Mas, raramente, isso é possível, afinal, a maioria das votações são secretas. É como se eu não soubesse em que eu votei. Muitos defenderão que, normalmente, não temos nem o interesse em acompanhar a votação. Concordo, mas como sempre, eximir uma das partes de responsabilidade, é sempre superficial. Se, por um lado, deveríamos ter mais interesse nos debates públicos, por outro as esferas públicas deveriam e poderiam trabalhar uma publicidade mais atrativa aos seus trabalhos, bem como trabalhar esse interesse na população através da educação.

Independentemente disso, alguns temas geram , sim, mobilização popular e interesse, ao menos de um determinado grupo de pessoas que serão diretamente envolvidas na questão discutida. O impeachment de Collor, por exemplo, segundo muitos, só se consolidou porque a votação foi aberta. E faz sentido. Não lembro agora qual o tema, mas, se não me falha a memória, no início dos anos 2000 uma questão que havia comovido a sociedade estava em pauta. Até a toda poderosa Rede Globo cobriu, através de plantões periódicos em sua programação a votação. Secreta. Por uma diferença considerável de votos, a questão reivindicada pela sociedade – infelizmente não lembro qual era – perdeu. Não sei como, uma vez que quase todos deputados (exceto por dois que eram abertamente contra), quando entrevistados, afirmaram categoricamente terem votado em prol do apelo popular. Todos sabem do caso de manipulação do painel eletrônico do senado, mas duvido muito que todas as eleições no congresso sejam assim. Acredito realmente que nossos representantes se esconderam atrás da votação secreta. Alguns, coitados, subestimando à inteligência ou interesse de seu eleitor, ou por mera cara de pau, vai saber, se contradizem mesmo com o voto aberto. Aqui em Minas, não faz um ano, um deputado, abertamente favorável a uma construção de uma linha de metrô que iria até o Barreiro (região extremamente populosa de BH, situada à sudoeste da cidade, bem distante do centro, na divisa com Contagem), mas seu voto na Assembléia vazou: ele votou contra.

Sou defensor da democracia, sempre. Até então não se encontrou uma maneira mais eficiente de se ordenar à sociedade. Entretanto, por, em certa medida, ela depender do ser humano, ela não é perfeita.